Copom surpreende e reduz dos juros em 0,5%
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quarta-feira, 17 de julho de 2002
Agência Folha 
Brasília - Um dia depois de divulgada pesquisa eleitoral mostrando forte queda do candidato do governo na corrida presidencial, o Banco Central surpreendeu e reduziu os juros básicos da economia de 18,5% para 18% ao ano. Para justificar a decisão, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC divulgou nota dizendo que a redução foi possível graças à confiança ''na manutenção, no futuro, de um arcabouço macroeconômico responsável''. No jargão da equipe econômica, ''arcabouço macroeconômico'' é o nome dado às bases da atual política econômica: compromisso com o ajuste fiscal, com o câmbio flutuante e com o controle da inflação.
Anteontem, pesquisa mostrou uma queda de dois pontos percentuais na intenção de voto do tucano José Serra, enquanto o candidato do PPS, Ciro Gomes, subiu quatro pontos e se firmou no segundo lugar, sete pontos na frente de Serra. No PSDB, era cada vez maior a pressão para que o BC reduzisse os juros, o que melhoraria a situação da economia e poderia favorecer o candidato do governo. Logo após a reunião do Copom, o presidente do BC, Armínio Fraga, se encontrou com o presidente do PSDB, o deputado José Aníbal, para falar sobre a conjuntura econômica.
A reunião estava marcada desde o início da semana. Na saída do encontro, Aníbal disse que a decisão de reduzir os juros foi puramente técnica, mas entrou em contradição ao justificar sua afirmação. ''No começo do ano, muitas lideranças do PSDB pediram (que o BC reduzisse os juros); não foi possível fazer'', afirmou o deputado.
Ao ser lembrado que o BC reduziu os juros por duas vezes no início deste ano - uma em fevereiro e outra em março -, Aníbal se corrigiu: ''Pois é, fizeram duas pequenas reduções, mas em março e em abril se imaginou que poderia fazer mais (cortes nos juros), e o Banco Central não fez. Fez agora porque há uma tendência de redução da inflação''. Na reunião de junho, quando indicou tendência de queda dos juros, o BC informou que as condições da economia ainda não eram as mais adequadas para reduzir a taxa.
Ontem, a decisão de reduzir os juros não foi unânime entre os diretores do BC. Foram cinco votos pela redução e dois pela manutenção da taxa. O Copom tem oito membros, mas um deles -o diretor de Administração, Edison Bernardes- não participou da reunião porque está de férias. Além da confiança na manutenção das bases da política econômica, o Copom também cita o fato de a projeção de inflação do ano que vem estar ''bem abaixo'' da meta fixada pelo governo.
No final do mês passado, o CMN (Conselho Monetário Nacional) aumentou de 3,25% para 4% a meta para a inflação do ano que vem. Além disso, a margem de tolerância para a meta passou de dois pontos percentuais para 2,5 pontos. No mês passado, o BC projetava inflação de 2,6% para o ano que vem -bem abaixo da meta de 4%. A margem de erro dessas projeções, porém, costuma ser alta. Em junho do ano passado, o BC estimava uma inflação de 3% para 2002. Um ano depois, essa projeção passou para 5,5%.
Também no mês passado, o BC informou que não reduziria os juros naquela ocasião por causa da alta do dólar e da taxa de risco-país. De lá para cá, porém, nenhum dos indicadores deu sinais de melhora.
1) O impacto do corte de juros na economia e no mercado
- O Banco Central ''devolve'' o dinheiro que estava parado em títulos da dívida pública do governo para movimentar a economia. Ou seja, como o rendimento é menor, o investidor é estimulado a buscar outras alternativas para remunerar seu dinheiro
- Com os investimentos e crédito mais baratos, os empresários voltam a pensar em contratar pessoal para aumentar a linha de produção. O comércio e o setor de serviços fazem o mesmo para aumentar a possibilidade de ganhos
2) Efeitos negativos
- Medo da inflação: com juro alto, o investidor deixa de consumir para guardar dinheiro
- Necessidade de atrair dinheiro para financiar a rolagem da dívida pública -com juro menor, cai o interesse em comprar títulos públicos
- Necessidade de atrair dinheiro estrangeiro: a política econômica brasileira sempre manteve juros altos para conter a fuga de divisas, como a que aconteceu pouco antes da desvalorização do real, no final de 1998
3) Efeito imediato nos mercados
- Derrubam os investimentos em títulos públicos (pois estão pagando menos); os papéis ficam mais baratos e o investidor pode ter inclusive rendimento negativo em suas aplicações
- Estimulam a procura por mais risco - e retorno -, como a Bolsa de Valores e o mercado de câmbio
Fonte: Agência Folha


