O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa Selic (os juros básicos da economia do País) em 1%, sem viés (sem abertura para nova redução até a próxima reunião, em novembro). A medida foi anunciada ontem e ficou dentro das expectativas mais conservadoras de economistas e lideranças políticas, que previam redução dentro da faixa de variação entre 1% e 1,5%. No fechamento do mercado financeiro de ontem, antes mesmo da decisão do Copom os investidores já trabalhavam com a possibilidade de queda da Selic. O dólar fechou com ligeira alta (R$ 2,864) e o Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) sofreu baixa de 1,16%. Com o novo corte, o quinto consecutivo, o Brasil passa a trabalhar com taxas anuais de 19%.
Analistas de mercado já previam a redução da Selic em decorrência dos primeiros indicativos de retomada do fluxo de investimentos no Brasil, dos superávits sucessivos da balança comercial, do comportamento tranquilo da inflação e do risco-país, abaixo dos 600 pontos. Nas previsões de um corte mais ousado dos juros, defendia-se a redução efetiva dos juros reais, de 12,9% ao ano, levando-se em consideração o comparativo entre a Selic e a previsão de inflação para os próximos 12 meses.
As previsões mais conservadoras tinham por base os primeiros sinais de reaquecimento das atividades industrais. A defesa de um corte mais raso também se justificava com a expectativa de avaliação dos impactos das medidas adotadas pelo Planalto nos últimos meses para o reaquecimento econômico, como as linhas de financiamento para compra de eletrodomésticos e do crédito com consignação em folha de pagamento, estendido ontem por meio de decreto pelo governo federal para os aposentados.
Um corte superior a 1,5%, segundo as consultorias financeiras, também ofereceria o risco de realimentar o processo inflacionário, já que, com juros menores, o consumo se intensificaria em escala superior ao período de adaptação da indústria para a oferta.
Para o economista e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Henrique Gumerato, a decisão mostra coerência do governo quanto à postura assumida diante da sociedade. ''Havia o compromisso de se tentar o reaquecimento com a redução dos juros e esse compromisso está sendo cumprido'', disse. Gumerato, porém, não acredita que um corte mais profundo, na casa do 1,5%, poderia reaquecer o consumo a ponto de comprometer as metas inflacionárias. ''Meio ponto percentual não é uma diferença tão significativa''. Segundo o economista, apesar de o efeito psicológico da medida surtir efeito imediato, fatores práticos impedem surtos consumistas.
Além de manter seu compromisso interno, a redução gradativa dos juros, para Gumerato, exibe no exterior a capacidade do BC de manter a economia do País sob suas rédeas. ''Fica uma boa impressão para a comunidade internacional''. Gumerato também acredita que a esperança do Planalto é de que o PIB nacional ainda feche o ano com saldo positivo. ''Isso também vai contar bastante para a nossa reputação''.
Desenvolvimento O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, gravou ontem à tarde um pronunciamento que fará à Nação, amanhã, às 20 horas, em rede nacional de rádio e televisão. Palocci dirá à população que a inflação é uma batalha vencida, o governo fez a sua parte, o País está pronto para crescer e chegou a hora de os empresários agirem, acreditarem no Brasil e assumirem responsabilidade de gerar novos investimentos e apostarem no crescimento do País. Direto e objetivo, o pronunciamento é curto - durou cerca de cinco minutos - e foi gravado hoje à tarde, pela empresa do publicitário Duda Mendonça. A marcação da data teve também o objetivo de capitalizar a decisão de mais uma redução da taxa básica de juros pelo Copom, criando um ambiente favorável para a arrancada do investimento, na avaliação do Ministério da Fazenda. (Com agências)

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