São Paulo - Pelo segundo mês consecutivo, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu reduzir a taxa básica de juros da economia, a Selic. Dessa vez, a queda foi de 0,5 ponto porcentual, sem viés, para 19% ao ano. A decisão, unânime, confirmou a aposta do mercado financeiro e sinalizou que a trajetória de queda dos juros vai continuar nessa proporção, pelo menos até o fim do ano. Apesar disso, o Brasil continua com as maiores taxas do mundo.
Em breve comunicado, o BC repetiu exatamente o texto da reunião anterior: ''Avaliando que a flexibilização da política monetária neste momento não compromete as conquistas obtidas no combate à inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 19% ao ano, sem viés.'' Com a decisão, a Selic cai para o menor nível desde fevereiro, quando estava em 18,75%.
O resultado, previsto por 60% dos analistas do mercado desde o início da semana, foi recebido sem entusiasmo pelo setor produtivo e o comércio. A Selic é utilizada nas operações feitas diariamente entre os bancos e o BC e, por isso, acaba servindo de referência para as demais taxas praticadas no sistema financeiro.
Em tese, juros menores estimulam o consumo das famílias e os investimentos das empresas, favorecendo, assim, o crescimento da economia. Analistas dizem que o aperto monetário iniciado no final de 2004 foi um dos principais motivos para a desaceleração da economia - o país, que cresceu 4,9% em 2004, deve ter expansão de 3,3% em 2005, segundo pesquisa de mercado feita pelo BC.
Na avaliação do economista Marcelo Allain, da Fipe/USP, não havia dúvida sobre o espaço para o BC reduzir a taxa de juros, já que o último relatório de inflação mostrava folga para isso. De acordo com o documento, as trajetórias dos índices de preços para este ano e para 2006 continuam próximas da meta.
Allain acredita que esse recuo será interpretado pelo mercado como um sinal de que novos cortes de 0,5 ponto serão feitos até o fim do ano e início de 2006. ''Não temos grandes preocupações no horizonte. O impacto da desvalorização do dólar nos IGPs significará preços administrados bem menores no próximo ano'', diz.
Outro fator importante é a melhora dos níveis de investimentos para aumentar a capacidade de produção, afirma o economista sênior do ABN Amro Asset Management, Eduardo Yuki. Isso vai estimular o crescimento, com o aumento da demanda, mas sem pressionar os preços, diz ele.
Diante desse cenário benigno, Yuki afirma que o banco estima uma taxa de juros da ordem de 14% no fim de 2006 e inflação de 4,5%. ''Mesmo assim, continuaremos com um dos maiores juros reais do mundo.''
Isso mostra que ainda há muita gordura para ser queimada nos juros, afirma o gerente de Política Monetária do Banco Itaú, Joel Bogdanski. Para ele, tecnicamente havia espaço para cortes mais agressivos. ''Mas sabemos que o BC não faria isso.'' Em relação ao cenário externo, o executivo afirmou que há um nervosismo, mas não chega ainda a prejudicar a política monetária.

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