Imagem ilustrativa da imagem Copom mantém Selic em 14,25% pela 9ª vez seguida
| Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
O presidente do BC, Ilan Goldfajn, após a reunião do Copom: analistas avaliam que o novo governo está inseguro sobre a redução da inflação



Na primeira decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) com Michel Temer garantido como presidente no lugar de Dilma Rousseff, o colegiado manteve ontem a taxa básica de juros, a Selic, em 14,25%. Foi a nona reunião com o mesmo resultado desde a alta a partir de 13,75% em julho do ano passado, em concordância com a orientação econômica do novo governo e sem perspectiva de alteração até o fim do ano, segundo analistas ouvidos pela FOLHA.
A inflação que não perde força apesar das previsões em contrário ainda é a justificativa para a decisão. A previsão do Copom é que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) se encaminhe em 2017 para mais perto da meta do órgão, que é de 4,50%. Entretanto, entidades do setor produtivo, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), apontam que a manutenção dos juros em alta adia a recuperação da economia.
O delegado em Londrina do Conselho Regional de Economia (Corecon), Laércio Rodrigues de Oliveira, afirma que o BC se mostra inseguro ainda sobre a redução da inflação, o que fez com que o Copom mantivesse a Selic. "O governo também está com uma dívida interna alta e precisa continuar a buscar o refinanciamento por meio da venda de títulos, o que faz com que mantenha os juros elevados", diz.
O professor de economia Lucas Dezordi, da Universidade Positivo em Curitiba, vai na mesma linha. "O BC está cauteloso em relação à inflação, então segura os juros em um patamar alto parar fazer com que os juros de curto prazo rendam mais até que o dólar se desvalorize", afirma, já que boa parte dos insumos e produtos no País são importados e cotados na moeda.
Por outro lado, o professor de economia José Moraes Neto, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), critica a decisão. "Pelo que vemos no discurso da equipe econômica do governo, vamos continuar a conviver com essa política de juros altos e usar um brutal superavit primário para pagamento desses juros ao setor financeiro."
Os três avaliam como improvável a redução da taxa Selic ainda neste ano, mesmo que analistas de mercado consultados no Boletim Focus, do próprio BC, estimem em 13,75% a taxa no fim de 2016. "O setor produtivo vai continuar pressionando porque não consegue tomar crédito. Tanto que houve redução na oferta e na demanda (de financiamentos)", diz o delegado do Corecon.

Pressa por confiança
Com uma imagem menos desgastada com o Congresso por estar no início de mandato, Temer, na visão de Dezordi, terá de mostrar que conseguirá implementar reformas, o que então poderia influenciar a política de juros. "O impeachment da Dilma já estava precificado pelo mercado. Agora serão necessárias grandes reformas, como a da Previdência, a tributária, mas o primeiro grande desafio é limitar o crescimento dos gastos públicos à inflação do ano anterior, que me parece uma boa proposta", diz.
Moraes Neto, contudo, considera que o conteúdo das propostas atingirá mais os mais pobres. "Todas as alternativas que foram amplamente divulgadas na imprensa atingem Previdência, congelamento de gastos públicos por 20 anos, medidas que preveem menores gastos sociais, mas que visam o pagamento de juros. É uma sangria no Tesouro Nacional", cita. "É uma política que vai agravar o processo recessivo na produção e no emprego", completa.
Dezordi também diz que é preciso um amplo debate antes de adotar medidas tão importantes. "Quem quebra a Previdência não é quem recebe salário mínimo, mas quem tem superaposentadorias e benefícios até por fora da lei. São esses que têm de ser limitados para reduzir a concentração de renda", diz. "O problema é o tamanho do remédio, porque o tamanho da dose pode matar o paciente", completa Oliveira.

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