Brasília O recuo da inflação em janeiro não serviu para o Banco Central mudar de idéia e suspender o ciclo de aperto monetário. Como já era esperado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu elevar ontem a taxa básica de juros da economia, a Selic, em 0,5 ponto percentual, para 18,75% ao ano. Foi a sexta elevação consecutiva e é a maior taxa desde outubro de 2003 (19%). Não foi adotado viés. Ou seja, a taxa não será alterada antes da reunião de março. A justificativa para a reunião de ontem será conhecida no dia 24, quando será divulgada a ata.
A decisão de ontem indica que o BC ainda não viu sinais de que a inflação está completamente sob controle. A autoridade monetária eleva o juro para deixar o crédito mais caro para empresas e pessoas e conter o consumo. Dessa forma, assegura a estabilidade da moeda.
O aumento da Selic acontece na mesma semana em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou que a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 0,58% em janeiro, ante 0,86% em dezembro.
O IPCA é o indicador da meta de inflação do governo, que é de 4,5% em 2005, com uma margem de tolerância de 2,5 pontos percentuais para cima ou para baixo. Embora a meta seja de 4,5%, o BC anunciou em setembro que irá perseguir uma inflação de 5,1%. Entretanto, as expectativas do mercado apontam para um IPCA de 5,74% neste ano.
Mais aperto O rigor do BC deve continuar enquanto não houver uma convergência das expectativas para o objetivo. Enquanto isso não acontece, empresários e políticos devem aumentar a pressão para que haja uma reversão nesse movimento de ajuste. A autoridade monetária teme que a recuperação econômica cause reajuste nos preços por parte da indústria.
Em 2004, a indústria cresceu 8,3%, o melhor resultado desde 1986, segundo o IBGE. O uso da capacidade instalada, medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), está em torno de 83% patamar que é o mais elevado já registrado pela entidade. A cautela do governo vem do temor da falta de investimentos se eles não forem feitos no nível necessário, é possível uma crise de demanda-consumo acima da capacidade da indústria atender os pedidos , o que pressionaria ainda mais os preços.
Externamente, o BC segue atento ao que ocorre nos EUA. Desde o ano passado a maior economia do mundo promove elevações em sua taxa de juros para conter o risco de inflação. Hoje, a taxa está em 2,5% ao ano.
Com rendimento maior, os títulos do governo norte-americano considerados as aplicações financeiras mais seguras do mundo, com risco próximo de zero atraem investimentos que, em tese, se sujeitariam a riscos maiores, como ações, dívidas públicas e privadas e o câmbio de moedas. Com isso, sobra menos dinheiro para investimentos em títulos de mercados emergentes, como o Brasil, considerado de risco alto.
Ontem, o presidente do Fed (Federal Reserve, o BC norte-americano), Alan Greenspan, disse que a inflação não é uma preocupação imediata, mas que deve ser controlada.

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