O centro da meta de inflação perseguida pelo Banco Central este ano é de 4,25%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual
O centro da meta de inflação perseguida pelo Banco Central este ano é de 4,25%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual | Foto: Donatas Dabravolskas / Shutterstock.com

O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu, por unanimidade, reduzir a Selic (a taxa básica de juros da economia) de 6,50% para 6% ao ano. Este é o primeiro corte da taxa após 16 meses e interrompe sequência de dez reuniões consecutivas de manutenção dos juros. Com isso, a Selic está agora em um novo piso da série histórica do Copom, iniciada em junho de 1996.

Ao justificar a decisão, o BC avaliou que a evolução do cenário básico e, em especial, do balanço de riscos “prescreve ajuste no grau de estímulo monetário”. Ao mesmo tempo, o BC afirmou que a consolidação do “cenário benigno para a inflação prospectiva” deverá permitir ajuste adicional no grau de estímulo, indicando um novo corte na próxima reunião, em setembro.

Ainda assim, o Copom enfatizou que a comunicação dessa avaliação não restringe sua próxima decisão. "Os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação", reiterou o colegiado.

PROJEÇÕES

No documento, o BC também atualizou suas projeções para a inflação. No cenário de mercado - que utiliza expectativas para câmbio e juros do mercado financeiro, compiladas no relatório Focus -, o BC manteve sua projeção para o IPCA em 2019 em 3,6%. No caso de 2020, a expectativa permaneceu em 3,9%.

No cenário de referência, em que o BC utilizou nos cálculos uma Selic fixa a 6,5% e um dólar a R$ 3,75, a projeção para o IPCA em 2019 também seguiu em 3,6%. No caso de 2020, o índice projetado foi de 3,7% para 3,6%.

O centro da meta de inflação perseguida pelo BC este ano é de 4,25%, com margem de tolerância de 1,5 ponto porcentual (índice de 2,75% a 5,75%). Para 2020, a meta é de 4%, com margem de 1,5 ponto (de 2,5% a 5,5%). No caso de 2021, a meta é de 3,75%, com margem de 1,5 ponto (2,25% a 5,25%). Já a meta de 2022 é de 3,50%, com margem de 1,5 ponto (2,00 a 5,00%).

Economista, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e colunista da FOLHA, Marcos Rambalducci comemorou o resultado. Ele temia que o Copom, por atuar de forma conservadora, cortasse apenas 0,25 ponto porcentual na Selic.

O fato de o Fed (banco central dos Estados Unidos) ter baixado a taxa de juros do País em 0,25 ponto porcentual também influencia na política monetária brasileira. Se o Brasil não ajustasse os juros no mesmo sentido, poderia atrair capital mais do que necessita, diz o economista. “Isso valorizaria o real e não interessa neste momento”, avalia.

Ele ressalta que a única função do banco é garantir o valor da moeda, controlando a inflação por meio da meta. E, por isso, o BC não leva em consideração indicadores como o desemprego. “Ao baixar os juros o Banco Central estimula a economia, mas isso é um benefício secundário”, alega.

Rambalducci diz que os efeitos na economia são percebidos de quatro a seis meses após a alteração na taxa de juros. “O investidor recebe a notícia e começa a tomar medidas para investir. Mas, entre essa decisão e o investimento em si, há um gap (descompasso) de quatro a seis meses.”

Ronaldo Antunes da Silva, presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, diz que o Banco Central não poderia agir de outra forma. “Até os Estados Unidos estão baixando a taxa de juros, não podíamos deixar de fazer um corte desse. Estamos com inflação baixa, a reforma (Previdência) está encaminhada, agora precisamos voltar a crescer”, alega.

Embora tenha caído um pouco, a taxa de desemprego, de 12% segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), é “um absurdo”. Ele também ressalta o intervalo que existe entre a decisão do Banco Central e seus efeitos no “mundo real”. “Mas só de saber dessa notícia, os investidores já melhoram suas expectativas.”

O economista ainda citou que a decisão do Fed é boa para o Brasil porque desestimula a saída de capitais daqui para os Estados Unidos. (Com Agência Estado)

DESEMPREGO VAI CONTINUAR ALTO

Como a mudança da taxa Selic demora de quatro a seis meses para ser sentida, a expectativa é que a economia siga em ritmo lento até o fim do ano. E que 2020 comece com um crescimento de 1,5% em taxa anualizada, segundo o economista Marcos Rambalducci. A estimativa do mercado, segundo o último boletim Focus, divulgado segunda-feira (29) pelo Banco Central, é que o País cresça apenas 2,10% no ano que vem e 2,50% em 2021 e 2022.

A locomotiva vai começar a andar devagarinho”, avisa Rambalducci. Para ele, o crescimento do ano que vem será de 2,5%. “Os economistas (das instituições financeiras que são ouvidos no Focus) estão sendo conservadores. Foram picados pela cobra e estão com medo de levar nova picada”, compara, referindo-se às expectativas do mercado para 2019, que acabaram se frustrando. “Eu mesmo previa um crescimento de 2,5% neste ano e se chegar a 1% será um milagre”.

Principal preocupação do País, o desemprego vai continuar gigante se as previsões do mercado estiverem corretas desta vez. “Para cada 3% de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), temos 1 ponto porcentual a menos na taxa de desemprego”, calcula.

Hoje, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa é de 12%, o que representa 12,8 milhões de pessoas sem ocupação. O Brasil precisaria crescer 3% para que a taxa chegasse a 11% ou 11,726 milhões de brasileiros. “Temos um longo caminho pela frente, de uns seis anos, para reconstruir o mercado de trabalho no Brasil”, diz o economista. Antes da crise, a taxa de desemprego chegou a 6,4% em janeiro de 2014.

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