Cooperar para crescer
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de novembro de 2001
Kassem Mohamed El Sayed 
De acordo com os princípios defendidos pelo Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade no Paraná (IBQP-PR) , a genuína relação de trabalho é aquela que contempla a participação efetiva e integral da gestão e do trabalho nos destinos da empresa, contribuindo para o aumento da produtividade, para a melhoria da qualidade de vida e para a consequente valorização dos colaboradores.
Para atender às crescentes exigências de um mercado globalizado e competitivo, é cada vez mais importante a participação ativa dos trabalhadores nos processos produtivos. Neste contexto, as relações de trabalho firmam-se como um dos elementos críticos para que as empresas possam alcançar a competitividade desejada. E, como no centro das relações de trabalho estão as pessoas, empresários e administradores devem tratar esta questão de forma arejada e objetiva, avaliando as responsabilidades e os riscos, encontrando alternativas que possam maximizar os resultados desejados pela empresa e pelos colaboradores.
Ao longo dos anos, em função de uma atitude muito cômoda de tutela imposta pelo Estado, gestão e trabalho sustentavam entre si uma relação cheia de vícios e estimulada por um processo de desconfiança mútua, propícia ao estabelecimento de conflitos. Diferente do que ocorre no Japão e em diversos países europeus, no Brasil, até pouco tempo, as empresas relutavam em permitir a participação efetiva dos trabalhadores nos destinos dos empreendimentos. Isto ocorria tanto pelo despreparo da classe empresarial que via esta participação como ameaça ou interferência na gestão quanto pela visão distorcida vigente nos próprios sindicatos, que insistiam em sustentar o clima de luta de classes para solucionar as questões trabalhistas.
A forma proposta pelo IBQP-PR para superar estas divergências foi o estabelecimento do Sistema de Consulta Conjunta Gestão Trabalho. Criado a partir da experiência acumulada em anos de negociações por entidades sindicais ligadas às classes de trabalhadores e patronais, além do Dieese, este sistema encontra-se em processo de implantação, com sucesso, em várias empresas da Região de Curitiba. Trata-se de um modelo que nasce do interesse comum das partes e busca a cooperação. Este sistema estabelece um canal de comunicação entre gestão e trabalho, onde os problemas e assuntos de interesse comum, não abordados na negociação coletiva, passam a ser discutidos de forma pacífica e sistemática, tendo com pano de fundo a melhoria da produtividade e a consequente distribuição dos ganhos gerados, além da criação de postos de trabalho.
Neste contexto, a Consulta Conjunta conclama trabalhadores e gestores para alcançar o entendimento através do diálogo. O Sistema de Consulta Conjunta está baseado nos princípios do interesse comum, da igualdade entre trabalho e gestão, da deliberação pacífica e da liberdade de organização. A adoção desses princípios permite a criação e o fortalecimento de um ambiente participativo.
Como decorrência deste processo ocorrem o maior engajamento e comprometimento dos trabalhadores, a melhoria no nível de comunicação entre todos os colaboradores e no relacionamento destes com os sindicatos da categoria, maior participação nos destinos da empresa e melhor distribuição da riqueza gerada através do aumento do valor agregado.
O modelo, definido por recomendação da Organização Internacional do Trabalho, não preconiza o estabelecimento de uma relação perfeita. Porém, propõe a busca de objetivos comuns que aprimorem a coexistência entre gestão e trabalho, condição máxima para a elevação do bem estar (econômico e social) da empresa, das pessoas que nela trabalham e da comunidade na qual todos encontram-se inseridos. Na atualidade, ainda convivemos com traços, posturas e disposições contrárias à evolução e às melhorias nas relações trabalhistas.
No entanto, precisamos construir uma relação madura, baseada na confiança mútua, como forma de se estabelecer uma parceria estratégica entre gestão e trabalho. É necessário trabalhar árdua e pacientemente na implantação de processos e práticas que permitam a participação, a cooperação e a valorização da contribuição criativa dos empregados que, na verdade, podem ser os verdadeiros diferenciais competitivos a determinar o sucesso e a prosperidade das empresas.
* KASSEN MOHAMED EL SAYED é psicólogo e coordenador do Núcleo Brasil-Japão do IBQP-PR.
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