Conversa de música
Prometi à minha amiga Heloisa Fischer que não ia escrever sobre o assunto, mas mudei de idéia. Espero que ela me perdoe. Como decidiu jogar tudo para o alto e pedir demissão do seu emprego na Rádio MEC, acho que eu também me devo alguma coisa e aos leitores, ao narrar estas histórias de pequenas grandes canalhices que apequenam e emprobecem o nosso país.
O primeiro ato da farsa foi há uns quatro anos, quando Walter Clark recebia sua última incumbência profissional: fazer da TVE alguma coisa decente. Clark - um puro, segundo os amigos que o conheceram bem - entrou no cenário com ímpeto, levou sua equipe de antigos colaboradores e - entre outras coisas talvez mais importantes - convidou-me, e à equipe da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio para fazer um programa sobre o assunto de nossa especialidade. Foi o Canal Propaganda & Marketing.
Assumimos a tarefa com entusiasmo e produzimos 42 programas, que não custaram um centavo à TVE. Eram feitos de colaboração, ou pagos por empresas que não faziam a mínima questão de serem mencionadas porque achavam que divulgar as técnicas do marketing e da propaganda era uma contribuição importante a uma sociedade a quem se impingem idéias feudais e corporativas como se fossem alforria.
Walter Clark foi atraiçoado pelas pessoas que sabem que o fizeram - e, ainda, dormem - e, numa viagem do ministro, brutalmente substituído por apaniguados, que precisavam ocupar aquele espaço de competência com sua consentida mediocridade. Nosso programa, que nada custava ao estado, foi substituído por outros, possivelmente com mais afinidade ideológica às capitanias hereditárias mentais que amaldiçoam o país.
Vida que segue. Nossa brilhante e eficiente Heloisa é convidada para reformular a programação da Rádio MEC.
Eu, que insisto em acreditar em competência, telefono para dizer: conte comigo. E proponho um programa - Conversa de Música - para explicar as lindezas da música clássica aos que não a conhecem tão bem. Para desvestí-la do incômodo smoking em que foi colocada pelo maestro Diogo Pacheco e os especiais da Globo. Para mostrar que a beleza transcendente pode ser apreciada no cotidiano.
Criamos 19 programas. Gravamos dezessete. A poesia de Mozart. Os filhos de Bach. Os animais na música. As mulheres compositoras. As óperas de Wagner arranjadas para o piano de Liszt. Música para casamento. O jazz na música clássica. Homenagens ao Brasil por grandes compositores. Os grandes tenores do passado.
Uma mina inesgotável, aumentada pelos discos comprados em viagem e importados pelo correio (claro que com as sobretaxas de praxe. Este ainda é o país das derramas oficiais).
Domingo, sai no Swann: Heloisa Fischer está demissionária, porque a direção da Fundação Roquette Pinto tirou do ar os sete programas que havia criado - com cavaleiros andantes como eu, Zevi Ghivelder e outros cinco, que desejavamos compartilhar nossas belezas. Deixaram no ar o senador da República e o padre do mosteiro de São Bento, porque com a política e com a igreja, a incompetência oportunista não ousa mexer.
Voluntariamente, sem custo para o Estado. Assinando documentos fictícios - para evitar problemas trabalhistas para a Rádio MEC... Gastando dinheiro nosso com discos, livros e até produção, porque acreditávamos que uma autarquia do Ministério da Educação e Cultura desejava difundir educação e cultura. Imbecís que fomos. Com que truculência e covardia foram esmigalhados nossos vasos de cristal, em tantos pedaços burocráticos e desconexos.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e MarketingJosé Roberto Whitaker Penteado
Não se deve ter medo de ser grande. - Shakespeare





