São Paulo - Outro dia, a empresária Marcia Carvalho foi à missa e sentou-se ao lado de uma senhora. ‘‘Estamos as duas usando Angel, hein?’’, comentou a senhora, toda orgulhosa, referindo-se ao famoso perfume de Thierry Mugler, que custa mais de R$ 300 em importadoras. Marcia sorriu, satisfeita. Na verdade, ela estava usando o 01 da Fator 5, fábrica de perfumes que ela fundou há 11 anos. O vidro de 30 ml do 01 custa R$ 25. ‘‘Mas o cheiro é igualzinho’’, Marcia esclarece.
  A Fator 5 é uma das principais empresas brasileiras a fabricar ‘‘contratipos’’. Os contratipos são fragrâncias inspiradas em perfumes famosos. Ou, como preferem os fabricantes de contratipos, perfumes que usam ‘‘referências olfativas’’. Eles são os equivalentes olfativos dos similares de remédios.
  Para chegar ao ‘‘cheiro igualzinho’’, perfumistas usam uma série de aparelhos que analisam o perfume original e determinam quais são suas matérias-primas. Daí, eles chegam a fragrâncias parecidíssimas - não podem ser exatamente iguais, senão é cópia. As empresas de contratipos usam batalhões de vendedores porta-a-porta para oferecer suas fragrâncias de ‘‘inspiração’’, todas batizadas com números. Na Fator 5, o 17 lembra o Gabriella Sabatini, o 12 foi inspirado no Azzaro. A Perfam (de Perfumes Famosos) e a Cazo são outras grandes do setor.
  Propriedade - Segundo o advogado especializado em propriedade intelectual Eduardo Tibau, sócio do Felsberg e Associados, vender perfumes inspirados em fragrâncias não é ilegal, desde que a empresa não use como propaganda o nome (a marca) do perfume no qual se inspirou. ‘‘As empresas não podem dizer que o perfume é tipo Chanel ou usar a marca em impressos’’, diz o advogado. ‘‘Mas se ela não citar a marca, não tem problema.’’
  Segundo Tibau, o segmento funciona como os fabricantes de similares de remédio, que lêem a bula e fazem um medicamento com os mesmos ingredientes. ‘‘Como a fórmula do perfume é secreta, eles tentam fazer uma fragrância parecida, mas não podem usar
a marca.’’
  A Fator 5 não pára de crescer. Começou com apenas mil revendedoras, e hoje tem 110 mil. Só para comparar, a Natura, uma das veteranas do mercado porta-a-porta, tem 483 mil revendedoras no País.
  Atualmente, a Fator 5 fabrica 220 mil perfumes por mês. No começo de 2007, vai inaugurar sua nova fábrica em Arujá (com projeto do arquiteto Roberto Loeb), que tem capacidade para produzir 3 milhões de perfumes por mês.
  Antes de fundar a Fator 5 com seu marido, Luciano, Márcia foi revendedora da Natura durante 11 anos. A fábrica da Fator 5 começou no quintal da casa deles, na Vila Matilde, na zona leste de São Paulo. A marca está presente em todos os Estados do Brasil e seus perfumes já estão à venda até em Angola.
  Para Márcia, os contratipos são um sucesso porque fazem as pessoas ‘‘se sentirem importantes’’. ‘‘A garota ganha um salário de R$ 600, compra o perfume e fica com o mesmo cheiro da chefe - é um sonho, é o perfume do artista, da amiga rica.’’ O público-alvo são as classes C e D. Mas há também usuários da classe A e B, ela diz. ‘‘Tem gente que guarda o perfume original para festas, enquanto usa o Fator 5 no dia-a-dia.’’

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