Conta marcada na caderneta
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terça-feira, 14 de junho de 2005
Marta Ortega<br>Reportagem Local 
Na era do computador e dos avanços tecnológicos, a cadernetinha vai muito bem, obrigada. É o que dizem os pequenos comerciantes que ainda mantêm a tradição de marcar as contas dos clientes mais antigos, aqueles em quem se pode confiar, mas que só vão ter dinheiro no final do mês.
Tradição que se estende ao longo de 39 anos no dia-a-dia da comerciante Maria Neusa Depieri Vicente, proprietária da Máquina de Arroz Santa Ângela, no Jardim Bandeirantes (zona oeste) onde também funciona uma pequena mercearia.
Ela relembra que, antigamente, o comércio só funcionava assim. ''O cliente comprava, marcava a conta, pagava a dívida no final do mês e só então, comprava de novo. Era assim com todos eles''.
O negócio era feito na base da confiança e da amizade. Ao longo de todos esses anos, a comerciante afirma que teve pouco prejuízo. Poucos clientes não conseguiam saldar as dívidas. ''Mas comércio é assim mesmo, a gente sempre perde um pouco''.
Nos casos em que a dívida acumulava muito, o jeito era cortar o crédito para não perder ainda mais. Mas a maioria, segundo Neusa, ''sempre pagou direitinho''.
Hoje, o estabelecimento mantém as mesmas características de antes. O computador não faz parte da rotina da comerciante, mas as mercadorias são pagas com talões de cheque e cartões de crédito.
Apenas dez clientes mantêm a tradição de marcar a conta na caderneta. ''São os clientes mais antigos, que estão com a gente desde o começo e que não têm acesso a esses sistemas, por isso, mantemos a caderneta''.
Entre eles está a dona de casa Maria de Lucena Ferreira, que há mais de 20 anos marca a conta para pagar depois. Ela leva de tudo. Arroz, feijão e miudezas para a casa. ''Ajuda bastante. Às vezes não tenho dinheiro para pagar à vista e marcar facilita''.
Dona Maria comenta que, quando precisa atrasar o pagamento, é só conversar com a comerciante. ''Se eu demoro um pouco, ela já sabe que aluguma coisa aconteceu e espera'', afirma, confirmando a relação de amizade e confiança nesse tipo de negócio.


