A indústria vai produzir menos neste ano porque a oferta de energia não será suficiente. Sem dúvida, será um dos mais fortes fatores para o recuo do crescimento do país em 2001. Mas o comportamento do consumidor também terá grande peso para ditar o ritmo da atividade econômica.
Num primeiro momento, a demanda deve se manter mais forte do que a oferta, o que contribuirá para pressionar a inflação por certo tempo. Mas a indústria começará a cortar vagas (ou deixará de abrir novos postos) e a reduzir horas extras. Assim, a renda dos trabalhadores vai diminuir.
Além disso, a expansão do crédito também será mais fraca. O Itaú, por exemplo, reduziu sua estimativa de aumento da carteira de crédito para este ano de 30% -antes da crise energética ser deflagrada-para 25%.
Diante desse quadro, a confiança do consumidor também cai -as pessoas têm mais receio de gastar. Isso pode gerar um círculo vicioso: o consumidor passa a comprar menos, o que leva o comércio a diminuir os pedidos à indústria. Essa, por sua vez, corta mais horas extras e empregos, o que reduz ainda mais a renda do trabalhador, que compra menos.
Para o economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, o consumo de bens duráveis será o item da demanda mais afetado. Ele avalia que as famílias reduzirão ‘‘drasticamente’’ a aquisição de produtos que consomem energia.
‘‘Embora tenda a haver algum crescimento de consumo decorrente da substituição de aparelhos velhos por modelos que gastem menos energia.’’ Para Belluzzo, a renda do trabalhador será mais afetada do que o nível de emprego. ‘‘O primeiro passo dos empregadores será reduzir horas trabalhadas, antes de demitir.’’ Outro fator que reduzirá o poder de compra será a inflação mais alta.
A previsão de Belluzzo para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) era de 5% neste ano. Ele refez suas contas e projeta o IPCA agora em 7%. Os bancos CSFB Garantia e BBA também aumentaram suas estimativas. De 4,6% e 4,4%, subiram, respectivamente, para 5,9% e 5,5%.
Segundo o CSFB, o impacto sobre a produção industrial será bem forte. De um crescimento anteriormente previsto de 5,8%, a instituição avalia agora que a produção industrial subirá 2,7%. O subsetor mais afetado será, para o banco, o de transformação (metalurgia, por exemplo), que tem peso de 22% na formação do PIB.
O racionamento de energia atingirá as regiões (Nordeste e Sudeste) onde está concentrada 75% da produção da indústria de transformação, destaca o CSFB.
Apesar das previsões pessimistas para o crescimento econômico, o BBA acredita que o plano de racionamento pode funcionar.
‘‘Nossa primeira avaliação sobre o plano anunciado pelo governo é positiva. Os segmentos comercial e industrial vão encontrar seus próprios meios para consumir [energia’’ dentro de suas cotas’’, disseram Márcio Brito e Pablo Terra, analistas do BBA.
Brito e Terra concluíram extenso estudo sobre o impacto da crise nos diferentes segmentos. Eles destacaram que setores mais dependentes do fornecimento de energia serão, evidentemente, mais afetados, como o metalúrgico. A estimativa do BBA é que o PIB cresça 2,10% neste ano. Para Belluzzo, o país crescerá 2,4%.

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