O mercado de consumo retraído é que está dando o tom das negociações entre indústria e comércio para repassar os aumentos de preços desencadeados pela desvalorização do real. O governo federal até chegou a acenar com a possibilidade de reduzir as alíquotas do Imposto de Importação (II) para coibir os aumentos abusivos de preços dos produtos nacionais. Mas, na prática, o temor que o faturamento recue ainda mais está brecando esses repasses.
O comércio de eletroeletrônicos, por exemplo, está aceitando aumentos de, no máximo, 15% na linha marrom, que inclui os aparelhos de áudio e vídeo, diante do pedido de reajustes que chegam a 30%. Na linha branca, que engloba geladeiras, fogões, entre outros, os aumentos médios aceitos estão limitados a 5%, para reajuste solicitados de até 10%.
‘‘O comércio é o pára-choque do consumidor’’, diz o diretor da Lojas Cem, especializada em móveis e eletroeletrônicos, Natale Dalla Vecchia. Na sua análise, o comércio está conseguindo frear a alta de preços porque, na cadeia de comercialização, está mais próximo do consumidor final e vê, de perto, a queda nas vendas resultante dos aumentos de preços. Além disso, Dalla Vecchia lembra que o Procon - órgão de defesa do consumidor - vai atrás do comércio.
Dalla Vecchia conta que concluiu que a linha marrom comporta, no máximo, reajuste de até 15% porque, na semana passada, ele repassou esse percentual e registrou queda de 20% nas vendas desses produtos. ‘‘Não podemos admitir reajustes maiores porque não estamos conseguindo vender.’’ Segundo ele, metade das grandes indústria de aparelhos de áudio e vídeo aceitou repassar um índice de reajuste menor.
O comércio informa que, na linha branca, a negociação está mais fácil, porque a fatia dos componentes importados é menor do que nos aparelhos de áudio e vídeo, que chega a 65%. Em janeiro, diz Dalla Vecchia, as grandes indústrias de eletrodomésticos mantiveram os preços nos patamares anteriores à desvalorização do real. Os reajustes começaram neste mês e refletem, além da desvalorização, o aumento de despesas por conta da Cofins e da CPMF.
Pelo fato de a indústria estar mais distante do consumidor final e mais próxima dos fornecedores de matérias-primas, que têm suas cotações balizadas pelo mercado internacional, ela está comprimida nas duas pontas. ‘‘Estamos como hot dog’’, compara o presidente do Conselho de Administração da Dixie Toga, gigante do setor de embalagens, Sérgio Haberfeld.
Ele diz que as pressões por aumentos dos preços de matérias-primas como papel, plástico, alumínio, entre outras, oscilam, em média, entre 30% e 35%, chegando a 40% em alguns casos. O argumento usado pelos fornecedores é que esses produtos são commodities e seguem as cotações em dólar do mercado internacional, apesar de a fabricação ser local. Se o mercado local não absorve esses reajustes, os fornecedores dessas matérias-primas têm a chance de exportá-las e obter uma remuneração maior.
Na outra ponta, observa Haberfeld, a indústria não pode repassar aumentos exagerados de preços, caso contrário não vende por causa da recessão. A Dixie Toga, por exemplo, decidiu reajustar entre 15% e 20% seus preços, porque a matéria-prima, cujas cotações são balizadas pelo mercado internacional, representam metade do custo dos produtos. Segundo Haberfeld, a queda de braço entre indústria e comércio exatamente a mesma da época do Cruzado, quando o Plano começou a fazer água. Ele acredita que essa guerra deve durar ainda de 30 a 40 dias.

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