São Paulo - A crise mundial começou a prejudicar a economia real brasileira. Mas o impacto ainda não é forte nem igual em todos os lugares. Nos últimos três dias, a reportagem percorreu duas conhecidas ruas de comércio de São Paulo, a Oscar Freire, que concentra um grande número de grifes e produtos de luxo, e a 25 de Março, grande centro de comércio popular.
Se as duas já eram contrastantes pelos produtos que ofereciam, a reação de ambas à crise as tornou ainda mais diferentes. Enquanto a 25 de Março continua abarrotada de gente, a Oscar Freire viu seus consumidores tornarem-se muito cautelosos. ''Você percebe que os clientes estão receosos'', diz Mickey Cinerman, proprietário da Presentes Mickey. ''Com a queda das bolsas, muita gente perdeu dinheiro que tinha aplicado e agora está esperando para ver o que vai fazer. As compras ficaram para depois.''
Mesmo que a crise fique menos intensa, Cinerman afirma que o recente aumento do dólar terá impacto sobre os preços. ''Todos os fornecedores estão reajustando tabela e, pelo menos em parte, precisamos repassar ao consumidor.'' Para ele, será impossível, com essa crise, o governo manter a meta de inflação em 4,5% neste ano. ''Mas só ao longo dos próximos 30 dias vamos poder ter uma idéia do que aconteceu.''
Apesar do sumiço da clientela, as lojas da região ainda não estão tomando as medidas previstas por muitos economistas, como juros maiores e, especialmente, prazos menores.
No centro da cidade a 25 de Março continua a balbúrdia de sempre. As calçadas tomadas pelos camelôs e a rua cheia de pedestres, amontoados ao redor dos carros e se empurrando para entrar nas lojas. ''Não sentimos diferença nenhuma no movimento'', diz o gerente da Aslan Aviamentos, Cristiano Francisco. ''A China ainda é um incômodo muito pior para nós do que os EUA'', comenta , apontando para os camelôs na rua.
No Armarinhos Fernando, uma das maiores lojas da região, o gerente Ondamar Ferreira afirma que houve até um aumento no número de clientes em relação ao ano passado. ''Eu acho que essa crise até pode afetar o Brasil, mas não sei como nem quando. Por enquanto, está tudo normal e nossas perspectivas para o fim do ano são excelentes.'' Segundo ele, outubro é o melhor mês do ano para a loja, por causa do Dia das Crianças. ''Só perde para o Natal.''
Os mais preocupados eram os lojistas que trabalham com importados. ''Já fiz os pedidos de Natal, agora vou ter que correr para negociar o preço'', diz Teresa Lee, gerente da Selina, loja de bijuterias voltada para atacadistas. Todos os produtos vêm do exterior, negociados em dólar. ''O jeito é repassar o preço; aí, pode ser que a crise tenha algum efeito.''

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