Consumo exagerado é sinal de doença
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quinta-feira, 28 de julho de 2005
Vera Barão<br> Reportagem Local 
''Sempre gostei de roupas caras, de grifes. Compro roupas que nunca usei e DVDs que só vejo uma vez. Quando vou ao mercado é uma festa. Compro muita comida e, muitas vezes, tenho que jogar no lixo porque estraga. Também já fiz vários empréstimos em bancos e me endividei ''. Esse desejo incontrolável de gastar levou a cabelereira Marília (nome ficticío) a estourar o cartão de crédito, entrar no cheque especial e cair na mão de agiotas. Estourar o orçamento repetidamente é um vício igual ao alcoolismo. A doença tem até nome: oniomania (mania de comprar), aquele que necessita comprar assim como o dependente químico necessita da droga.
Esse comportamento compulsivo é sinal de doença e tem tratamento psicológico, aliado à medicação. Embora não exista dados estatísticos sobre a doença no Brasil, ela tem crescido bastante e já existe até um grupo de auto-ajuda chamado Devedores Anônimos, que segue a mesma linha de atuação do Alcoólatras Anônimos. O DA, como é chamado o grupo, funciona há quatro anos numa das salas da Catedral Metropolitana de Londrina, com reuniões todas às segunda-feiras, das 19 às 20h30. Em torno de 270 pessoas já frequentaram as reuniões. Atualmente o grupo está com 12 participantes.
De acordo com os coordenadores do DA, o casal Deize e Wanderley, o programa de recuperação atende todos os tipos de gastadores e devedores compulsivos. Segundo Deize, a oniomania é uma doença terrível. ''É como qualquer vício. O primeiro passo é assumir esse comportamento'', diz ela. De acordo com Deize, na maioria das vezes a família não entende que isso é doença e nem percebe que a pessoa está se endividando. ''A consequência disso são lares desestruturados, casais separados e filhos com problemas emocionais porque crescem vendo brigas. Os familiares se isolam, enfim a vida da pessoa se transforma num caos'', explica Deize.
Segundo a coordenadora, o grupo tem uma rica literatura e é, através dela, que muitos saem do fundo do poço. ''Quando se compartilha a caminhada, é mais fácil. Lá existem pessoas com diversos problemas. Expondo o seu problema, você ajuda outras pessoas também'', completa, acrescentando que é necessário frequentar o grupo, aprender os 12 passos e estar sempre envolvido com esse trabalho para o resultado ser positivo. ''Muita gente aparece uma única vez, ouve e vai embora. É uma ilusão achar que o problema será resolvido em um dia'', diz.
Frequentando o grupo há cinco meses, Marília ainda não se sente curada. ''Fico nervosa, desesperada só de ver uma liquidação. Tenho que me policiar'', conta ela, dizendo que teve época em que comprava tantas coisas e não sabia porque estava adquirindo. ''Agora não posso e não tenho condições de fazer isso, estou tentando acertar minha vida''. Por anos a fio, ela teve o mesmo comportamento e participou de uma ciranda de empréstimos com bancos, administradoras de cartão de crédito e financeiras.
O medo de Marília agora, é que seu comportamento se repita nos três filhos. ''Nos Estados Unidos, as escolas ensinam educação financeira. Aqui não, o consumismo é estimulado pela mídia. Às vezes meu filho pede alguma coisa, digo que não tenho dinheiro, mas ele fala para eu dar um cheque'', conta.


