Rio de Janeiro - O comércio do País perdeu R$ 2 bilhões em vendas em 2002, na comparação com o ano anterior, segundo a Pesquisa Anual de Comércio (PAC), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Depois de três anos crescendo, o faturamento do setor encolheu 0,4% (descontada a inflação). Especialistas em varejo garantem que o quadro em 2003 foi ainda pior e indicam que não há sinais claros, ainda, de reversão para 2004.
''Não sou pessimista. Sou otimista. Mas, às vezes, a gente não consegue ser'', comentou o coordenador de cursos do Programa de Administração de Varejo (Provar) da USP, Luiz Paulo Fávero. Para ele, as recentes reduções de juros não são suficientes para a retomada do consumo. ''Houve queda de renda dos últimos anos e, com certeza, 2003 foi pior que 2002'', afirmou.
As vendas do comércio somaram R$ 549,3 bilhões em 2002. Dividido pelos três ramos considerados pelo IBGE, o desempenho de vendas ficou assim: aumento de 0,2% no comércio atacadista e quedas de 0,1% no comércio varejista e de 3,1% em veículos e peças. No atacado, o destaque foi o segmento de produtos agropecuários in natura, com avanço real de 11,7% nas vendas, em parte por conta do avanço das exportações.
No varejo, jogaram para baixo o desempenho geral os segmentos de produtos farmacêuticos (-3,8%), tecidos e vestuário (-2,3%) e lojas de departamentos, eletrodomésticos e móveis (-0,7%). Já os segmentos de combustíveis (com um crescimento de 3,9%), material de construção (1,9%) e hiper e supermercados (0,9%) contribuíram para elevar o faturamento geral.
Entre 1996 e 2002, a falência de grandes redes, problemas no mercado e queda na renda do trabalhador reduziram a fatia das lojas de departamentos, eletrodomésticos e móveis dentro do total do varejo de 17,5% para 10,9%. Outros segmentos trilharam o caminho inverso. O peso dos supermercados aumentou de 23% para 24,4%. No caso do varejo de combustível, o avanço foi ainda maior: de 14,8% da receita geral para 22,5%. A analista socioeconômica do IBGE Juliana Vasconcellos explica que esse aumento reflete o aumento da frota de veículos, a desregulamentação do setor, que permitiu a entrada de novas bandeiras no mercado, e a elevação dos preços dos combustíveis, sobretudo a partir da desvalorização cambial de janeiro de 1999.
Nos últimos sete anos analisados pela PAC, o faturamento aumentou em termos reais, descontada a inflação, mas o rendimento médio dos trabalhadores encolheu. No caso do varejo, o rendimento médio despencou de 2,5 para 1,9 salários mínimos entre 1996 e 2002. Na mesma época, a receita real aumentou 10,4%. No comércio total, o salário médio encolheu de 2,3 para 2,2 salários mínimos entre 2001 e 2002. Um dos motivos apontados por consultores para a queda do rendimento médio é o crescimento de pessoal empregado com remuneração mais baixa.

mockup