O número de consumidores que direcionaram a renda extra obtida no fim do ano para compras caiu de 11,4% em 2012 para 10,8% em 2013, enquanto o de devedores que procuram quitar contas aumentou de 23,4% para 28,6% entre os dois períodos. Os resultados são de estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) e indicam a desconfiança diante do cenário econômico nacional, a pressão inflacionária e a desaceleração da criação de novas vagas de emprego.
Houve ainda crescimento na quantidade de pessoas que decidiram poupar o dinheiro extra, que passou de 23,7% para 24,4% entre os dois anos. Além do 13º salário, os tipos de renda familiar além da habitual mais comuns nos fins de ano têm origem na participação nos lucros de empresas, em empregos temporários e na movimentação de negócios. No entanto, a gratificação de fim de ano tem ganhado espaço sobre o total de recursos obtidos pelos trabalhadores. As pessoas que tiveram apenas o 13º como alento somaram 86,2%, diante dos 78,2% do ano anterior.
A economista responsável pela sondagem da FGV, Viviane Seda, diz que os resultados apontam para um cenário de vendas de Natal abaixo das expectativas e de um desempenho mais fraco no varejo durante o ano passado. "A cautela do consumidor ao longo de 2013 resultou em contenção de compras", afirma.
Outro indicador de que diminuiu a circulação de recursos é que o percentual de pessoas com renda além da habitual tem recuado desde 2011, quando foi de 64,5%. No ano seguinte, o índice fechou em 60,4% e, no ano passado, em 57,6%.
O presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, considera que o levantamento da FGV reflete as perspectivas pouco otimistas que chegam à população. "As notícias ruins sobre a economia têm sido mais comuns e as pessoas se preocupam mais com o que ouvem e com o que sentem, também pela inflação."
Ele cita que a alta dos preços que não são administrados pelo governo, como os de serviços e bens em geral, foi mais elevada e sentida pelo consumidor do que a média geral, que ficou aquém do que poderia com a contenção das tarifas de transporte e energia elétrica, por exemplo. "Você não vê uma retração tão forte nos números (da pesquisa da FGV), mas é o nosso cenário. A pessoa percebe as informações negativas e vai retraindo os gastos."
Para o professor de economia João Basílio Pereima, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é preciso considerar também que o País viveu um período de "desespero por compras" em anos anteriores, quando brasileiros que sempre tiveram pouco puderam ter acesso a produtos que eram inacessíveis. "Há um maior grau de saciedade (no consumo interno), apesar de a fome não ter acabado e ainda poder crescer."
Pereima considera que outro ponto relevante é o endividamento mais elevado, principalmente no que chama de sistema "bizarro" de consumo brasileiro, com incentivos a aquisições a prazo. "Isso encarece demais a compra, pesa sobre o orçamento do consumidor e faz com que ele precise parar e pagar as dívidas", diz, ao lembrar ainda do aumento da tomada de crédito imobiliário pela população.
Ambos consideram que não há muito espaço para mudança do cenário neste ano. "No máximo, podemos ter alguma euforia durante a Copa do Mundo, mas nada muito exagerado", diz Antunes.

Imagem ilustrativa da imagem Consumo de Natal dá lugar à poupança e a nome limpo
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