Rio de Janeiro - Principal motor da economia brasileira na década passada, o consumo das famílias teve uma queda de 4% em 2015, em comparação com o ano anterior, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. É a maior queda pela atual série histórica do instituto, iniciada em 1996. Num período mais longo de medição, que considera a antiga série histórica do IBGE (que tem metodologia diferente), foi o maior ajuste de despesas dos lares desde 1991. A maior queda até aqui havia sido registrada em 1998 (-0,7%).
O resultado interrompe 11 anos de crescimento ininterrupto do consumo da família, movimento impulsionado pela ascensão social dos brasileiros, programas de transferência de renda e farta oferta de crédito de bancos públicos. Segundo economistas, as famílias cortam as despesas para enfrentar um quadro de deterioração econômica, como aumento do desemprego, menor renda, a inflação elevada e o custo mais caro do financiamento. Nesse quadro perverso, a confiança do consumidor brasileiro foi ao chão. É a menor desde 2005, início da série histórica de uma pesquisa do Instituto de Economia da FGV (Fundação Getulio Vargas). Essa redução no consumo afetou variados ramos da economia, desde as vendas de automóveis, passando por produtos da linha branca (geladeira e máquina de lavar) a até mesmo a alimentação fora de casa.
Num ambiente de pouca confiança dos empresários e incertezas sobre a retomada do crescimento econômico, os investimentos tiveram uma queda de 4,9% no quarto trimestre do ano passado em relação aos três meses anteriores. Com mais um resultado ruim, os investimentos - chamados tecnicamente de formação bruta de capital fixo - acumularam dez trimestres consecutivos de queda, a mais longa da nova série. Considerando a antiga série histórica do IBGE, que tem metodologia diferente da atual, é também uma sequência sem precedentes desde 1991.

FAZENDA
Diante da confirmação de retração do PIB no ano passado, o Ministério da Fazenda afirmou, por meio de uma nota, que a economia poderá voltar a crescer ainda neste ano. "A economia poderá se estabilizar no terceiro trimestre e apresentar crescimento positivo a partir do quarto trimestre deste ano", diz a nota. O IBGE revelou ontem uma queda na atividade econômica de 3,8% em 2015. De acordo com a Fazenda, entre os fatores que mais influíram para esse cenário estão: queda no preço das commodities, crise hídrica e consequente problema de abastecimento, desinvestimentos da cadeia de petróleo, gás e construção civil, realinhamento de preços relativos na economia e ajuste macroeconômico.
A aposta do ministro Nelson Barbosa para uma recuperação ainda neste ano se baseia na crença de que esses fatores não devem se repetir "na mesma intensidade" em 2016. A retração do PIB decorreu da contribuição negativa da demanda doméstica de 6,5%, enquanto a demanda externa contribuiu com crescimento positivo de 2,7%, diz a nota. "O grande desafio do crescimento é recuperar a demanda interna. Nesse sentido, o governo tem realizado uma série de iniciativas que permitirão a retomada do crescimento e a estabilização da renda e do emprego." O ministro cita o esforço de ajuste fiscal, que aconteceu no ano passado e persistirá em 2016 - o corte em gastos discricionários previsto no Orçamento deste ano será de R$ 23,4 bilhões.

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