Curitiba - Saber explorar o crescimento do poder de compra das classes mais baixas da população pode ser a chave para que as redes de varejo se destaquem em meio à concorrência nos próximos anos. A tese foi defendida ontem, em Curitiba, pelo publicitário Renato Meirelles, durante um seminário que reuniu cerca de 300 empresários do setor moveleiro paranaense, em evento promovido pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). Para ele, o aumento do consumo das camadas populares veio para ficar, mas é preciso que as empresas mudem suas estratégias de vendas para poder atrair esse público.
O publicitário é um dos sócios do instituto Data Popular, especializado em levantamentos sobre os hábitos de consumos das classes C, D e E. ''Essas camadas representam um mercado que não pára de crescer e que já responde por 67% de todos os cartões de crédito existentes no País. Só no ano passado, elas movimentaram R$ 550 bilhões com suas compras'', afirma.
Segundo o publicitário, o acesso de boa parte dessa população aos bens de consumo, incluindo móveis e eletrodomésticos, foi possível por três motivos principais. O primeiro foi o aumento na oferta de crédito. Em seguida, o crescimento da renda média dos trabalhadores. ''Nos últimos 10 anos, o salário mínimo subiu 280%, enquanto a inflação no período foi de 148%'', diz Meirelles.
Por fim, ele cita a criação de programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família. ''Não quero fazer juízo de valor sobre esses programas, mas a verdade é que eles colocaram mais de R$ 11 bilhões na economia do País'', justifica. Para Meirelles, esses três fatores seriam garantias de que o crescimento no consumo das classes baixas é sustentável. ''Nenhum governante vai mexer nisso porque é garantia de voto'', declara. ''Além disso, para cada criança das classes A e B, você tem dez das classes C, D e E. Logo elas vão crescer, constituir família e continuarão consumindo''.
Nas lojas do chamado comércio popular de Curitiba, é fácil encontrar exemplos que se encaixam no perfil traçado pelo publicitário. A garçonete Liane Lehmen, 24 anos, conta que há alguns meses trocou parte dos móveis de sua casa e agora pesquisa preços de uma cama nova. ''Com certeza, de uns tempos para cá tudo ficou mais acessível. As lojas oferecem muitas vantagens e facilitam o pagamento'', afirma. Mas, segundo ela, a principal razão foi o aumento na renda, que faz com que sobre algum dinheiro no fim do mês. ''Procuro sempre economizar antes de comprar para fugir dos juros'', garante.
Já a dona de casa Idamara Marcondes de Oliveira Silva, 43 anos, aponta a oferta de crédito como principal motivo para ter comprado um sofá novo, além de equipamentos eletrônicos. ''Como podemos parcelar, ficou mais fácil comprar essas coisas'', diz.
Renato Meirelles alerta, no entanto, que as lojas e empresas precisam alterar suas estratégias de negócios para conseguir atrair esse público. ''É um mercado que veio para ficar, mas as pessoas não sabem vender para ele. Não basta oferecer crédito, você tem que acabar com preconceitos que criam barreiras de acesso a esses consumidores. Para isso, é preciso saber se comunicar com esse público'', afirma o publicitário.

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