O consumidor com renda de até um salário mínimo tem ao menos uma semelhança com o que recebe mais de dez salários. Os dois apresentam bom conhecimento sobre finanças, mas, apesar da consciência de que é errado, gastam mais do que ganham, pouco guardam dinheiro e têm dificuldades em planejar o futuro. Na pesquisa de indicadores de educação financeira, lançada ontem pela Serasa Experian, a conclusão foi que ter mais dinheiro na conta não significa maior tranquilidade na hora de checar o extrato bancário.
Segundo o levantamento, a média geral para o conhecimento de conceitos sobre finanças foi 7,5. Quando avaliada a atitude, ou seja, a forma como o entrevistado se relaciona com o dinheiro, a nota caiu para 6,3. No caso do comportamento, que trata da aplicação no dia a dia, foi para 5,2. Economista da Serasa, Luiz Rabi diz que a educação financeira não é tão baixa quanto se imaginava, mas que a forma de agir é problemática. "O brasileiro conhece razoavelmente bem como deveria se comportar, mas na hora de colocar em prática ele se atrapalha."
Rabi afirma que existem diferenças na noção dos conceitos, mas que acabam na aplicação da teoria na prática, tanto na comparação entre gêneros ou rendas. "Os homens sabem um pouco mais, sabem como deveriam se comportar, mas no comportamento são iguais às mulheres, fazem as mesmas bobagens."
Para o diretor do campus Londrina da Pontifícia Universidade Católica (PUC), o consultor de finanças pessoais e empresariais Charles Vezozzo, os motivos para a diferença entre o saber e o aplicar se deve a fatores culturais. Ele lembra que a geração que conviveu com a "inflação galopante", com remarcações de preços diárias, ainda age de acordo com a memória daqueles tempos. Há também o incentivo do marketing das empresas ao consumo. "Veja o exemplo de pessoas que trocam um celular com pouco tempo de uso, sem precisar, por outro de modelo mais novo, que pode nem mesmo ter funções a mais", diz.
O professor de economia Antônio Zotarelli, que mantém um projeto de extensão de finanças domésticas na Universidade Estadual de Maringá (UEM), lembra que existe hoje uma procura maior por cursos, sites e livros sobre educação financeira, mas que o comportamento não muda de uma hora para outra. "Junto aos instrumentos para controle vieram as facilidades de consumo, como oferta de crédito e juros mais baixos", conta.
Zotarelli vê o consumidor brasileiro como alguém que empurra o endividamento com a barriga. "As pessoas sabem que os juros cobrados delas estão caros em relação ao que conseguem com aplicações, mas vivem o momento, parcelam, adiantam o 13º (salário) para pagar", diz. Para ele, deve ocorrer uma mudança apenas em longo prazo.

Poupança
A pesquisa da Serasa aponta também que apenas 18% da população com até um salário mínimo de renda poupou em algum momento no último ano. O índice aumenta conforme a receita, até chegar a 78% para pessoas acima de dez salários. Zotarelli diz que pessoas que ganham menos contam com um peso maior de necessidades básicas no orçamento. Por isso, lembra que o perigo de uma bolha e da estagnação da economia deixa quem recebe menos mais vulnerável. "Se poupa um pouco, tem reserva para superar momento ruim. Ou vai precisar entregar moto, carro e casa."

A pesquisa
Foram entrevistadas 2.002 pessoas maiores de 16 anos no primeiro trimestre deste ano, em 142 cidades de todos os estados brasileiros.

Imagem ilustrativa da imagem Consumidor sabe de finanças e não aplica
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