Consumidor refinancia dívidas
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sábado, 27 de setembro de 2003
Márcia de Chiara<br>Agência Estado 
São Paulo O consumidor usou o crédito pessoal este ano para ''trocar'' dívidas, não para ir efetivamente às compras. De certa forma, esse comportamento do consumidor até o momento explica, em parte, o esforço e a expectativa dos bancos, das lojas e das administradoras de cartão de crédito de ''laçar'' clientes neste fim de ano para comprar a prazo, já que a renda continua deprimida e o nível de desemprego elevado. Com cenário macroeconômico mais favorável previsto para os próximos meses, quem ganha dinheiro vendendo a prazo ou concedendo crédito, vai tentar recuperar no último trimestre as perdas registradas até agora.
De janeiro a agosto, o volume de financiamento destinado a pessoa física, descontada a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou praticamente estável ante igual período do mês anterior, com acréscimo de apenas 0,7%, segundo os cálculos da Serasa, empresa especializada em informações econômico-financeiras para os bancos. Enquanto isso, nos primeiros sete meses de 2003, as vendas do comércio varejista registraram queda de 5,42% na comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com os cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
''Esta é uma evidência de que o crédito não foi para o consumo'', afirma o assessor econômico da Serasa, Carlos Henrique de Almeida. Ele explica que os consumidores usaram o dinheiro obtido numa linha de Crédito Direto ao Consumidor (CDC), por exemplo, cuja taxa é menor, para quitar dívidas do cheque especial, que tem juros mais elevados.
Análise realizada pela consultoria Boanerges & Cia confirma essa avaliação. O saldo do crédito destinado a pessoas físicas registrado no Banco Central, que leva em conta os créditos formais na economia, isto é, exclui o cheque pré-datado, iniciou 2002 crescendo a uma taxa de 32,2% ante o ano anterior. Em 2003, a taxa de crescimento em janeiro foi de 7,8% na comparação anual. ''O fundo do poço foi atingido em maio deste ano, quando a taxa de crescimento anual recuou para 7,2% ante o ano anterior'', ressalta o sócio-diretor da consultoria, Boanerges Ramos Freire.
Almeida pondera, no entanto, que o crédito mais barato e com prazos alongados neste fim de ano, que é o grande apelo deste Natal, é arriscado. ''Se as lojas e os bancos não concederem bem o crédito neste trimestre, com critério, poderá ocorrer um repique da inadimplência no início de 2004'', adverte.
Para Freire, o deslanche das vendas a prazo que deverá ocorrer nos próximos meses, induzido em boa parte pelo governo, não se trata de consumismo. ''O crédito é um forte indutor do crescimento econômico saudável'', afirma. A questão é concedê-lo com critério, pondera.


