Consumidor muda perfil do varejo
O Brasil já tem 4 milhões de domicílios abrigando uma só pessoa. Eles formam a categoria de domicílio unipessoal, que começa a aparecer nas pesquisas de demanda de bens e exerce influência relativa na mudança de paradigma do varejo.
Os hábitos de consumo dessas pessas são completamente diferentes dos hábitos convencionais, os familiares, cujo estilo de compra, contudo, ainda predomina.
No entanto, a compra do mês, que enche o carrinho do supermercado, é um hábito em declínio; está se tornando antigo, segundo consultores do varejo.
Novos hábitos de consumo mudam a estratégia de investimento nos supermercados. Grandes redes estão revendo, desde o ano passado, o seu programa de expansão. Na nova realidade, ninguém mais sai pelo interior construindo hipermercados, nem Carrefour, nem Big, nem Pão-de-Açúcar. As organizações estão investindo nas chamadas lojas de vizinhança.
Quem garante é Antônio Carlos Ascar, da Ascar & Associados, de São Paulo, consultor especializado em varejo, 37 anos na praça.
As grandes redes que não levarem esta realidade em consideração estarão desafiando o risco do fracasso, segundo ele. O volume de vendas para dar equilíbrio aos grandes hipermercados tem que ser muito grande. Desde o ano passado, a relação custo-benefício tem um indicador mais radical: vai considerar a população flutuante por metro quadrado. É apenas um exemplo, mas nesse enxugamento vai pesar até o coeficiente metro quadrado de ar condicionado, exemplifica outro consultor de varejo, que atua junto à Abras.
Ascar não concorda que a redução no volume nas compras seja debitada à perda do poder de compra dos consumidores, como defendido, ontem, nesta coluna. Prefiro atribuir a redução ao fim da cultura inflacionária de cinco anos atrás - disse - quando as pessoas recebiam o salário e corriam para as compras.
Pelo sim ou pelo não, a indústria também tem procurado se adequar. As embalagens dos e pre-cozidos e pre-preparados têm menor peso e volume. Mas ainda tem muito que avançar.
O que se percebe é que as mudanças vêm depois. O varejo não tem sido suficientemente pro-ativo.
Ascar usa o exemplo do pão de fôrma fatiado. A embalagem tradicional de 20 fatias ainda sobrevive mas leva ao desperdício embolorando na geladeira. O consumidor quer peças menores - e nem precisam ser os habitantes do domicílio unipessoal.
O fato novo no varejo é este nicho que ninguém quer perder. A praticidade adotada pela indústria a essa nova demanda acaba ditando a moda para todo o consumo. Ninguém compra uma bandeja de tomate de meio quilo se puder optar pela de embalagem de 300 gramas. Três anos atrás, o feijão fez isso e se deu bem, com uma ressalva: os especialistas em marketing detectaram que o consumidor optou pela embalagem menor, de 500 gramas no lugar do pacote de um quilo. A inovação reduziu o consumo.





