Consumidor joga fora mais de 40 kg de alimentos por ano
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de fevereiro de 2019
Aline Machado Parodi Reportagem Local 

O brasileiro joga fora mais de 40 kg de comida por ano. A dupla arroz e feijão vem em primeiro lugar, representando aproximadamente 36% do volume de alimentos que vão para o lixo, seguido da carnes (bovina e frango) com 35%. Os dados fazem parte da pesquisa do projeto Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil, da Embrapa, realizada pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e aplicada pela MindMiners, startup de pesquisa digital.
O levantamento procurou entender as principais causas do desperdício, considerando as sobras de alimentos em pratos, panelas ou armazenados na geladeira. Mais de metade (53%) dos entrevistados disse que cozinha quantidades acima do necessário. E este esbanjamento não faz diferenciação de classe social.
"Sabíamos do desperdício na etapa final, mas não havia um retrato nacional. E acreditávamos que havia a influência de fatores sócio-demográficos, mas a renda da família não influencia na quantidade de alimento jogado fora. São fatores comportamentais, a cultura e valorização da abundância", explicou Gustavo Porpino de Araújo, analista da Embrapa e líder do projeto Diálogos Setoriais União Europeia-Brasil.
Entre os alimentos mais desperdiçados estão arroz (22%), carne (20%), feijão (16%) e frango (15%). O economista Marcos Rambalducci, colunista da FOLHA, calculou o impacto no orçamento familiar levando em consideração o preço da cesta básica de Londrina.
Levando em consideração também o percentual de desperdício de frutas, legumes e leite, vão para lixo 26% do valor da cesta básica de 2018. Isso significa R$ 85,61 de gastos para uma pessoa. Pensando em uma família de três pessoas o valor é R$ 256,82.
"Analisando esse valor sobre o salário mínimo (R$ 998) equivale perder um quarto do salário. É muito significativo. E para a população baixa renda o impacto será maior, mesmo que a quantidade de alimento seja equivalente", avaliou Rambalducci.
A média da cesta básica de 2018 foi de R$ 332,03. A carne, por exemplo, tem preponderância neste valor. "O desperdício de carne representa R$ 27,68 em cima da cesta para alimentar uma pessoa. Estamos desperdiçando 1,5 kg de carne por mês", ressaltou o economista.
O levantamento apontou que o brasileiro joga fora 4% das frutas, verduras, legumes e leite compradas. Um percentual considerado conservador para o colunista da FOLHA.
O analista da Embrapa afirma que o problema começa antes do consumidor chegar ao supermercado. Analisando a jornada do consumidor - horário da compra, cardápio e armazenamento do alimento - percebe-se que o desperdício está enraizado no itinerário de consumo.
"As famílias vão impulsivamente ao supermercado, não fazem lista de compra e, às vezes, acabam comprando o que já tem em casa. Outro ponto é que o brasileiro ainda gosta de fazer uma grande compra mensal. Quando você faz compras menores e mais planejadas, você diminui a propensão de desperdício", comenta Araújo.
FRESCOR E ABUNDÂNCIA
A pesquisa revelou que o brasileiro gosta de mesa farta e não costuma comer comida requentada. "O brasileiro gosta da sensação de abundância e frescor. O alimento está muito ligado a questão da dignidade. Ele se sente um verdadeiro cidadão na hora que está se alimentando. Tem pelo menos o direito de comer uma comida fresca. Comer arroz fresco e feijão do dia é importante para todas as classes sociais brasileiras", ressaltou Carlos Eduardo Lourenço, professor da FGV e responsável pela pesquisa.
O estudo mostrou que cada pessoa desperdiça em média 128 gramas/dia. "Quando se mede por dia é relativamente pouco e é fácil desperdiçar essa quantia, porém é ao longo do ano que se vê o tamanho do problema, considerando que, em média, são duas ou três pessoas por domicílio", frisou o professor.
Segundo ele, o nível nacional está próximo de países desenvolvidos como os Estados Unidos. "Ele está incorporado no processo e é difícil mostrar o impacto geral", afirmou. Os estudos sobre a quantidade de alimentos jogados fora pelo consumidor ainda são incipientes na América Latina.
Na Europa há levantamentos, mas que utilizam metodologias diferentes, o que dificulta a comparação. Mas de acordo com o Relatório Especial Luta contra o desperdício alimentar, do Tribunal de Contas Europeu, da União Europeia, cerca de 88 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente na UE. Estima-se que, se não forem tomadas ações, este valor aumente para aproximadamente 126 milhões de toneladas até 2020.
Os dados variam significativamente conforme a fonte. A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) estima que 52% dos alimentos são descartados na fase de consumo e o custo econômico do desperdício em escala mundial seja em torno de US$ 1 bilhão (valor dos produtos desperdiçados e dos subsídios pagos para a sua produção). O custo ambiental (emissões de gases com efeito de estufa, escassez de água e erosão) atinge cerca de US$ 700 mil milhões.

REAPROVEITAMENTO
A servidora pública aposentada Sandra Mastelini Costa, 56, administra as panelas para não ter sobras, mas quando ocorre ela tem na manga receitas para reaproveitar. Os gastos com alimentação representam quase 60% do orçamento da família.
O arroz do dia anterior vira um arroz temperado. O leite se transforma em doce. "Às vezes faço uma sopa limpa trilho. Pego tudo que tem na geladeira e faz aquela sopa", contou Costa.
Produtos como arroz, feijão, açúcar ela prefere comprar uma vez por mês. Mas as carnes, frutas e verduras são compradas para a semana. "As folhas eu prefiro frescas, porque elas estragam mais fácil, mas brócolis, couve-flor dou uma branqueada com água fervendo e congelo", ensina.
Ela não costuma fazer um cardápio antecipado. O almoço e a janta dependem do que foi comprado na semana. "Às vezes compro uma carne mais barata e organizo a comida de acordo com a compra.
Apesar dos esforços da funcionária pública aposentada ainda ocorrem desperdícios. "Neste calor está indo alguma coisa fora. Às vezes você faz a mesma quantidade de comida todos os dias e ainda sobra, porque você não está com menos apetite", afirmou. Para as sobras não irem para a lata do lixo, Costa congela e doa para o cachorro da vizinha.
Ela dá uma para evitar as sobras: diminuir o tamanho das panelas. Cozinhar em uma panela grande pode levar a fazer mais comida do que o necessário.


