São Paulo – O brasileiro paga uma das taxas de juros mais altas do mundo, muito superior à taxa básica estipulada pelo Conselho de Política Monetária (Copom), a chamada taxa Selic, mantida esta semana em 26,5% ao ano. Dependendo do tipo de crédito escolhido, o consumidor pode acabar desembolsando até 11 vezes mais do que a taxa básica do País. É o que mostra a pesquisa mensal da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), que monitora a evolução das taxas de juros no Brasil.
  Segundo o levantamento, os juros cobrados sobre empréstimos pessoais em financeiras, por exemplo, custaram em média 12,81% no mês de abril, atingindo 324,79% no acumulado de 12 meses. Até agora, a média mensal de 2003 nessas instituições é de 302,35%. As financeiras proporcionam um acesso mais facilitado ao crédito e chegam a emprestar um valor equivalente a 100% da renda da pessoa física, enquanto os bancos costumam restringir o montante a 30% do orçamento pessoal.
  Esses empréstimos são a modalidade mais cara de crédito. Em algumas financeiras, os juros podem atingir 22% ao mês, o equivalente a 987,22% ao ano, segundo o vice-presidente da Anefac, Miguel de Oliveira. Ou seja, o consumidor que aceitou um empréstimo nessa condição pagou 37 vezes a Selic em juros, ao fim de um ano.
  De acordo com Oliveira, da Anefac, há financeiras que aprovam empréstimos sem exigir comprovação de renda. ‘‘Mas como elas têm os maiores juros, recomendamos que o consumidor esgote todas as alternativas antes de recorrer a esse tipo de crédito.’’ Ele alerta ainda que há muitas armadilhas nas promessas de ‘‘dinheiro fácil’’, algumas feitas por organizações que se dizem financeiras, mas nem são legalmente constituídas ou reconhecidas pelo Banco Central.
  Em segundo lugar aparecem os juros cobrados pelos cartões de crédito, que somam uma média de 232% ao ano. Logo após, o cheque especial, que atinge 209,03% ao ano e, depois, os juros do comércio, em média de 116,61% em 12 meses. Os juros mais ‘‘baratos’’ são cobrados pelos bancos, 65,96% para financiamento de compra de bens e 92,96% para empréstimos pessoais. No entanto, muitos consumidores acabam não tendo acesso a esses tipos de crédito, que normalmente exigem complexos processos seletivos antes de o pedido ser aprovado.
  ‘‘Neste cenário de escassez de crédito, as pessoas têm cada vez mais dificuldades de conseguir empréstimos nos bancos’’, observa Donizete Piton, presidente da Associação Nacional de Defesa dos Consumidores do Sistema Financeiro (Andif).
  O microempresário Marcio Di Roberto Gama é um dos muitos brasileiros que sofrem com os juros altos. Há dois anos começou a usar o limite do cheque especial e depois a parcelar no rotativo gastos em cartões de crédito e acabou com uma dívida de R$ 7 mil por causa das taxas de juros. Com um rendimento mensal em torno de R$ 3 mil, apartamento e carro financiado, ele está tendo dificuldade para cobrir o rombo. ‘‘Pagar taxas de 10% ao mês em cima de uma dívida de R$ 7 mil é muito pesado. São R$ 700 por mês só de juros’’, diz. Do total do débito, R$ 2,5 mil ele já conseguiu renegociar em oito parcelas e com juros de 2,4% ao mês. ‘‘Quero pagar tudo e sair dessa situação. Mas é difícil voltar ao equilíbrio depois que se entra nesta ciranda.’’

mockup