Consultoria ainda é inacessível a pequeno investidor
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domingo, 02 de março de 2014
Yolanda Fordelone<br>Agência Estado 
São Paulo - Em um cenário no qual obter altos retornos nos investimentos se tornou bem mais complicado que no passado, a demanda por assessoria financeira está aumentando. O Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF) quer tornar o serviço mais acessível e popular, mas o custo pode não ser vantajoso para o pequeno investidor.
O número de consultores com o Certificado de Planejador Financeiro (CFP, na sigla em inglês) cresceu 39% no ano passado, fechando 2013 em 1.263 profissionais. Em 2014, mais 281 receberam o certificado. "As pessoas estão percebendo que a questão patrimonial é importante e por isso buscam ajuda especializada. Antigamente, não havia tanto planejamento porque você comprava um CDB, ia para a praia e voltava mais rico", brinca o diretor de Atendimento a Pessoas Físicas da Rio Bravo, Julio Ortiz.
Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, que baliza os investimentos em renda fixa, está em 10,75% ao ano. Há uma década, o juro girava no nível de 17%. "Quando o juro entrou em tendência de queda, esse investidor viu que teria de começar a se mexer", diz.
A assessoria, ou consultoria financeira, tem como característica um trabalho mais próximo ao cliente. "É a pessoa que se dedica a ajudar as famílias na gestão e planejamento do patrimônio. A preocupação não é só com o retorno, mas com quais são os objetivos e as necessidades", afirma a consultora Ana Cláudia Utumi, professora da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras).
Para os clientes dos bancos, o serviço não é cobrado, mas o investidor precisa ser de alta renda ou estar no segmento private, o que exige investimentos de no mínimo R$ 1 milhão.
Há ainda a opção de contratar um consultor independente ou gestora de recursos - neste caso, há obviamente um preço para o aconselhamento.
"Pode haver uma taxa fixa, um porcentual baseado no patrimônio mensal ou anual do investidor ou a remuneração pode ser paga pelo gestor do produto em vez do investidor", explica o CEO do IBCPF, Ricardo Nardini. O importante, segundo ele, é que o profissional deixe o valor claro na hora da contratação.
Na Rio Bravo, o investidor deve ter no mínimo R$ 50 mil para se tornar cliente e ter acesso a uma assessoria. Há pouco tempo, porém, o valor era ainda maior: R$ 1 milhão, em 2011.
Bancos
No Santander, é necessário ter renda mensal de mais de R$ 10 mil ou uma carteira de R$ 200 mil para ser cliente Select. O segmento private começa em R$ 3 milhões. Já no Banco do Brasil, a alta renda é chamada de Estilo e precisa de uma carteira a partir de R$ 100 mil. Quem possui mais de R$ 2 milhões já se enquadra no private. Por fim, o HSBC oferece consultoria individualizada para quem possui R$ 100 mil ou mais - antes de 2012, o valor de corte era de R$ 1 milhão.
Pequeno investidor
A percepção do mercado é de que o serviço ainda não é tão vantajoso para o pequeno investidor. "A atividade sempre foi reservada para um público restrito, porque há custos para se manter um profissional informado e certificado", diz o gerente de registros e autorizações da Superintendência de Relações com Investidores Profissionais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Daniel Maeda.
Além disso, há dúvidas se um serviço tão especializado é vantajoso quando o dinheiro disponível para investir é pouco. "Se o investidor tiver R$ 2 mil, R$ 3 mil, ele não consegue agregar tanto valor na carteira por meio da diversificação", diz Ortiz.
O serviço de consultoria financeira, porém, se concentra não apenas nos investimentos, o que justificaria um maior interesse e ingresso dos pequenos. "O profissional com CFP faz um diagnóstico de todo o processo de planejamento financeiro, passando por quatro áreas: seguros e previdência, investimento, planejamento tributário e sucessório", enumera o presidente do IBCPF, Luiz Sorge.
O instituto firmou uma parceria no fim do ano passado com a CVM para promover workshops e palestras sobre educação financeira e levar o serviço de consultoria gratuita, apelidada de Clínica Financeira, a alguns eventos. Atualmente, ela só ocorre em feiras especializadas, como a ExpoMoney.
Além da demanda dos investidores pelo serviço, as próprias instituições passaram a exigir mais certificações de seus funcionários, o que explica o aumento de CFPs no Brasil. Segundo pesquisa do Comparator - realizada em 12 países com o objetivo de mensurar o valor da certificação CPF para as empresas - 80% das companhias acreditam que empregar alguém certificado trouxe impacto positivo aos clientes, além de ajudar na fidelização.
"Há uma guerra de preços entre os bancos. Para tentar se diferenciar neste meio, tentamos incentivar o funcionário certificado. Quanto mais capacitado o consultor, mais o cliente irá operar e por mais tempo", explica a diretora executiva de gestão de patrimônio do Santander, Maria Eugênia Lopez. (colaborou Hugo Passarelli)


