Construtoras não recompram debêntures
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segunda-feira, 04 de dezembro de 2000
Carmem Murara De Curitiba 
As construtoras paranaenses que lançaram debêntures no mercado financeiro, nos últimos cinco anos, para fazer empreendimentos imobiliários em Curitiba e os fundos de pensão que compraram estes papéis correm o risco de ter amargado um prejuízo financeiro. O resgate dos papéis começou a vencer e as construtoras alegam que não têm como fazer a recompra. O resultado é um impasse entre os dois lados que começou a ser negociado entre as empresas e os fundos, há dois meses. Há casos, no entanto, em que a operação financeira foi parar na Justiça.
Por um lado, os fundos não querem abrir mão de receber os valores que foram acertados no contrato. Mas reconhecem que as debêntures valorizaram muito acima da média de qualquer outra aplicação financeira. Há casos em que as debêntures valorizam 135% no ano, enquanto que contratos corrigidos pela Taxa Referencial ficaram em torno de 30%. Se a comparação for feita em relação à valorização dos imóveis na cidade, a diferença é mais acentuada. Os imóveis foram reajustados em média 17% no período.
As construtoras não se sentem à vontade para falar no assunto. Temem que as negociações com os fundos se prejudiquem. Mas um dos donos de uma construtora que lançou debêntures concordou em falar com a Folha, desde que seu nome não fosse revelado. Ele contou que, em 1995, quando surgiu a opção de emitir debêntures para construir prédios, a expectativa de toda a economia nacional era de que os juros começariam a cair. O período era de estabilidade econômica. Tudo levava a crer que era um excelente negócio. Na época, era quase impossível conseguir financiamento bancário para fazer uma obra, relembra o empresário, que hoje se arrepende do negócio.
A queda de juros não ocorreu como o esperado. Muito pelo contrário. As taxas foram às alturas. O governo federal, interessado em garantir a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, piorou ainda a situação quando manteve a âncora cambial, com o real supervalorizado em relação ao dólar. A âncora cambial parou o País, reclama o dono da construtora. A maioria das debêntures era corrigida pela taxa Andib mais 2%. Andib é o índice da Associação Nacional dos Bancos de Investimento e Desenvolvimento.
Com as dívidas aumentando mês a mês, as construtoras optaram em procurar os fundos de pensão para negociar. Isso já aconteceu com Irmãos Thá, Nave, Morada Real, Galvão e Cidadela. A Casa Construção, no entanto, com receio de enfrentar problemas com seus principais debenturistas, a Banestado Corretora e o Funbep (Fundo de Pensão do Banestado), recorreu à Justiça, no final de setembro. A construtora temeu que com a privatização do banco, que foi vendido para o Itaú, o processo ficasse sem solução. A Casa Construção pede revisão na taxa de juros. Isso é briga para dez anos, diz o consultor de uma das maiores empresas de consultoria do País, que também prefere manter seu nome não divulgado. Ele se refere tanto à pendência judicial quanto às negociações.
A construtora, no entanto, já ganhou liminar que suspende o resgate das debêntures, que venceriam na última sexta-feira. O dono da Casa e Construção, procurado pela Folha, não quis falar. O caso está sub judice e isso nos impede de dar declarações, disse, pela sua assessoria de imprensa.
O diretor-presidente da construtora Irmãos Thá, Alberto Acioly Veiga Filho, diz que seu impasse com os fundos de pensão já está praticamente solucionado. Conseguimos resolver o problema com a repactuação das dívidas e maior prazo e condições para o resgate das debêntures, afirma Veiga. Ele diz ainda que alguns imóveis foram oferecidos aos fundos como parte do pagamento. A Thá construiu dois imóveis com emissão de debêntures: O Ecco Hills e o Porthal do Lago, ambos em Curitiba.
A renegociação com os fundos e toda a situação em que se envolveu, entretanto, ainda não foi bem digerida pelo diretor-presidente da Thá. Tivemos de auferir um prejuízo, por conta deste País querido, diz com ironia, ao se referir à política econômica do governo federal que mantém os juros elevados. O Eco Hills tem prejuízo acumulado de R$ 5,5 milhões e o Porthal de R$ 4,3 milhões. Por causa de todos os problemas enfrentados, as construtoras desistiram de construir imóveis com o lançamento de debêntures.


