A redução de salários não pegou na construção civil, nem entre empresários e nem entre sindicalistas. Representantes dos trabalhadores e das empresas do setor reuniram-se ontem e chegaram à conclusão de que, diante de um salário médio R$ 314 para operários não qualificados, considerar a redução de 10% no ganho e de 25% na jornada de trabalho pode não ser a melhor saída para evitar demissões num eventual período de crise. A Força Sindical firmou recentemente acordo com empresas de autopeças permitindo o encolhimento dos ordenados.
‘‘Os salários na construção civil são baixos, quando comparados a outros setores’’, reconheceu o vice-presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon), Artur Quaresma Filho. ‘‘Seria o mesmo que condenar o trabalhador à fome’’, protestou o diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo, com 313 mil empregados na base, Antônio Ramalho. A entidade é filiada à Força Sindical, autora da idéia, e mesmo assim decidiu rejeitar o modelo adotado pelos metalúrgicos.
As duas partes começarão a negociar este mês outras opções para driblar dificuldades, se ocorrerem. Hoje o setor vai bem - nos primeiros dez meses do ano houve aumento de 5,6% no faturamento, em relação ao ano anterior, e de 5% no nível de emprego. A alta de juros ainda não interferiu nos negócios. ‘‘É claro que, se continuar por muito tempo, as pessoas procurarão o mercado financeiro para obter ganhos, e não a construção civil’’, disse Quaresma.
Mas a expectativa dos empresários não é ruim. Pesquisa da entidade mostrou que 43,4% dizem acreditar em estabilidade no volume de negócios e 28,3% em ligeiro crescimento. O restante espera queda.
Mesmo sem considerar redução de salários, trabalhadores e empregados começam quinta-feira uma negociação de longo prazo para desestimular a rotatividade e as demissões. Umas das saídas em estudo - e proposta pelos empresários há dois anos - é a criação do banco de horas: trabalha-se menos em períodos de mercado desquecido e mais quando a empresa precisa, mantendo-se salário estável. Ramalho concorda com a jornada flexível e a negociação definirá os limites disso.
Outra opção dos empresários para combater rotatividade depende de mudança na legislação: o empregado manteria o vínculo empregatício quando não houvesse obra alguma em andamento, dedicaria seu tempo livre a cursos de reciclagem patrocinados pela empresa e, aí sim, teria salário reduzido ou simplesmente suspenso - preservadas apenas as constribuições legais, como Previdência e outros encargos.

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