São Paulo - O setor de construção civil deve encerrar 2003 com o pior desempenho dos últimos 13 anos. De acordo com estudo conjuntural da Fundação Getúlio Vargas (FGV), baseado em índices do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a queda do Produto Interno Bruto (PIB) do setor deve chegar a 8,5% este ano, puxada principalmente pela falta de investimentos do chamado autoconstrutor, pessoa física que investe na construção de imóveis ou reformas e é um dos principais motores desse mercado. No ano passado, período considerado um dos mais críticos para esse mercado, a retração foi de 4,04%.
De acordo com o estudo, divulgado ontem, outros fatores também contribuíram para a crise na construção civil: falta de investimentos públicos, elevação das taxas de juros e da carga tributária incidente sobre o setor e contingenciamento de crédito. ''Os números apontam para um queda do produto sem precedentes'', avalia o professor da FGV Fernando Garcia. ''O cenário fica ainda pior quando analisados os resultados trimestre a trimestre, que resultam em quedas de 10%.''
Pelo levantamento, todos os setores da construção civil sofreram retração ao longo do ano. Os destaques negativos ficaram por conta do segmento de artefatos de cimento, com queda de 17,91%; cimento, -11%; areia, -7,24%; e fios, cabos e condutores elétricos, com -7,59%. ''As vendas do segmento de edificações caíram cerca de 5,4%, o que levou à diminuição do volume de encomendas de material de construção e prejudicou o desempenho desses fornecedores, como os de cimento'', exemplifica.
Um dos indícios, segundo Garcia, de que o impacto dos autoconstrutores (ou ''formiguinhas'') no desempenho do setor foi maior do que se imaginava é o fato de o produto interno da construção civil ter caído mais que o número de vagas formais. ''Se consideramos que o emprego formal caiu apenas 4%, ante os 8% do produto do setor, pode-se concluir que as construtoras não registraram queda de produção tão acentuada'', explica o professor. A diferença, acrescenta, estaria justamente na análise do mercado de autoconstrutores e reformas. ''Se o ano tivesse sido tão complicado para as construtoras, o número de empregos formais teria caído muito mais'', afirma.
De acordo com Garcia, o autoconstrutor sempre foi a base do mercado de construção civil no País, mas, pela primeira vez, deixou de investir no setor. De um lado, em decorrência de indicadores macroeconômicos: queda de 15% da renda real, o alto ''preço'' do crédito nas lojas de materiais de construção e a pressão do custo da indústria no preço final daqueles insumos. De outro lado, há estudos que demonstram que bens eletroeletrônicos, por exemplo, levam os brasileiros a correr mais riscos de parcelamento que material de construção. ''Há estudos que mostram que o brasileiro deixou de investir na reforma da casa para adquirir outro bem, como celulares'', diz.

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