Consórcios rendem-se à crise e negociam
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 1998
Carmem Murara 
Com índices elevados de inadimplência, que superam em muito a média considerada suportável de 8%, os consórcios tiveram de adotar a estratégia da negociação para convencer os devedores a pagar as prestações atrasadas. Desde que a lista dos inadimplentes aumentou e atingiu o patamar de 19% dos consorciados, segundo dados do Banco Central, as administradoras estão empenhadas em facilitar a vida de quem está com dívidas. O resultado tem sido satisfatório, garantem as administradoras. Algumas conseguiram recuperar metade das cotas consideradas perdidas.
Os casos mais comuns são de consorciados que pagam as primeiras parcelas e se arrependem do negócio. Eles começam atrasando as prestações, até que param de fazer o pagamento mensal. A maioria está com outras dívidas no comércio ou comprometeu mais do que o salário mensal. Diante desta situação, o consumidor opta por fazer um corte nas despesas e o consórcio acaba encabeçando a lista.
O presidente regional da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), Reinaldo Bertini, diz que o setor normalmente se prepara para ter uma margem de inadimplência que varia de 5% a 8%. Percentuais acima disso representam situação de risco, que merece ser tratada com negociação. Os acordos com os inadimplentes são caso a caso e quase sempre trazem bons resultados, garante Bertini. Os representantes das Abacs de todo o País estiveram reunidos em Caxias do Sul (RS), até ontem, para traçar um perfil do setor e avaliar o calote dos consumidores.
Muitos concluíram que parte da culpa pela inadimplência vem do governo federal, que tem uma política que leva o consumidor ao não pagamento, acredita Bertini. Quando temos altos juros ou quando o desemprego aumenta, pode ter certeza de que teremos mais inadimplentes, afirma. As administradoras sempre dão um prazo de 60 dias para incluir o consorciado na lista dos devedores, o que faz reduzir para 5% o índice.
O diretor comercial da administradora Servopa, Marco Rossi, disse que do total de 400 mil consorciados, pelo menos mil estão têm prestações atrasadas. Mas a campanha feita para renegociar as dívidas conseguiu recuperar 300 cotas, o que dá um terço do total. Hoje temos uma clientela cativa do consórcio e temos de manter estes potenciais compradores, afirma Rossi. Ele diz que chamar o consorciado para a negociação é o melhor remédio.
Há três meses em atividade, a administradora Barigui União acompanha com cautela os índices de inadimplência entre os concorrentes. Ainda é cedo para termos uma avaliação, mas sabemos que a falta de pagamento preocupa todo o setor, diz o gerente comercial da Barigui Veículos, Angelo Zagonel. A Barigui União fechou o sexto grupo de 120 consorciados, superando a meta inicial que era fechar um grupo por mês.


