O presidente Fernando Henrique Cardoso voltou a ser cobrado ontem para que os recursos arrecadados com a venda do Sistema Telebrás sejam transformados, na sua totalidade, em investimentos na área social. ‘‘O resultado financeiro da privatização é apenas uma gota d’água num oceano da dívida, entretanto, o investimento social tornará a dívida uma gota, diante do oceano de pessoas produtivas e dignas resgatadas para esse nosso País’’, disse ontem Wilma Motta, viúva do ministro das Comunicações Sérgio Motta, durante a cerimônia de apresentação dos novos donos das empresas de telecomunicações, privatizadas na semana passada.
Ela aproveitou o presente que recebera momentos antes das mãos do atual ministro das Comunicações, Luís Carlos Mendonça de Barros, - o martelo que selou a venda da Telebrás - para transferir a Fernando Henrique a responsabilidade pelo bom uso dos recursos. ‘‘Ao receber este martelo, vejo-o como símbolo de esperança’’, disse Wilma Motta. ‘‘Como símbolo, acho que não deveria ficar em minhas mãos, mas sim nas mãos de quem efetivamente poderá usá-lo em benefício desse nosso Brasil’’, emendou, ao passar o martelo para as mãos do presidente.
‘‘Passo às mãos de nosso presidente dizendo que, como num leilão, como num tribunal, ele fará o encerramento de uma sessão’’, continuou a convidada. ‘‘Tenho certeza de que vossa excelência é sensível à nossa realidade e sabe da cobrança que as gerações futuras farão sobre suas decisões.’’
Durante seu pronunciamento, Wilma Motta lembrou as idéias de seu marido - cuja ‘‘utopia era ver nosso País economicamente desenvolvido e cada vez mais justo socialmente’’ - e confirmou suas divergências com a equipe econômica do governo em relação ao destino do dinheiro da venda das estatais. Repetindo o discurso do marido, falecido em abril, ela vem defendendo o uso dos recursos para fins sociais, enquanto o presidente, pressionado pela equipe econômica, decidiu destinar ‘‘a maior parte’’ da arrecadação para o saneamento do déficit público.
Fernando Henrique saiu pela tangente, sem adiantar se pretende voltar atrás na decisão - anunciada na semana passada - de destinar a maior parte dos mais de R$ 22 bilhões para o abate da dívida. ‘‘Arbitrei a utilização dos recursos da melhor forma possível, levando em consideração os interesses do País e os interesses do povo, não de imediato, mas no conjunto da população e na história, no tempo’’, afirmou.
Operadoras internacionais de telecomunicações começaram ontem a procurar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), interessados na participação de 25% da sua subsidiária BNDESPar no capital do consórcio que arrematou a Tele Norte Leste (conhecida como Telemar). Na composição acionária da empresa que controlará a Telemar, as empresas sem nenhuma ligação com o governo (Andrade Gutierrez Telecomunicações, Inepar e Macal, de ex-controladores do Banco Garantia) ficaram com uma fatia de apenas 45,1%.

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