Novamente a crise econômica da Argentina passa a ser objeto das maiores preocupações. O que se pode comentar em termos de reflexos no Brasil e que lições a observar?
Para o economista Luiz Antonio Fayet, sob o aspecto econômico as duas medidas centrais lançadas pelo governo argentino são as corretas e as fundamentais: câmbio livre e equilíbrio das contas do governo. Entretanto, ele enfatiza que as questões políticas misturadas no processo atrapalham o encaminhamento das soluções.
Por outro lado, existem questões fáticas de difícil solução: ninguém quer arcar com os prejuízos dos erros anteriores, principalmente os decorrentes do câmbio fixo, e poucos têm confiança uns nos outros. Lastimavelmente, comenta o economista, não há uma solução milagrosa e não adiantará em nada mudar de governantes, pois terão de manter a política econômica básica como está desenhada e arcar com todas as consequências dos erros cometidos.
Segundo seu entendimento, conforme já prevíamos, embora o mercado deles represente cerca de 10% para as exportações brasileiras, para alguns segmentos elas são fundamentais, e os percalços estão criando dificuldades quase intransponíveis para muitas empresas, especialmente aqui no Sul.
Para nós brasileiros, observa o economista, o sofrimento argentino deve servir de alerta, pois nossa situação econômica não é muito mais bonita do que a deles. Fayet cita alguns pontos críticos: as nossas contas externas nos últimos três anos têm apresentado resultados negativos da ordem de 50 bilhões de dólares a cada ano, perto de 12% de nosso PIB (uma brutalidade), que tem exigido rolagem de financiamentos e investimentos externos para serem zeradas; só de juros de dívida externa, temos pagado mais de 14 bilhões de dólares todos os anos. Para mera referência, a construção de uma usina como Itaipu custa uns US$ 18 bilhões; as contas do setor público têm apresentado um bom superávit, mas quando incluímos na conta os juros da dívida pública total, a coisa muda de figura.
No ano passado esses juros somaram mais de 100 bilhões de reais, e a arrecadação total do setor público perto de 350 bilhões de reais, fazendo por consequência que a referida dívida seja crescente e esteja se aproximando de 60% do PIB. Para referência, em reais, uma Itaipu custaria cerca de 45 bilhões; a carga fiscal já bateu no limite tolerável, pois no governo FHC passou de aproximadamente 23% para 33% do PIB, uma das mais altas do mundo; a flutuação cambial continua sendo artificialmente contida dentro dos interesses políticos do governo, caso contrário o dólar estaria cotado acima de R$ 2,80; a inflação não foi controlada, ela está simplesmente represada.
Por isso, se o País tiver um crescimento de uns 5%, alguns fatores inflacionários recrudescerão e ela poderá ultrapassar 8% num ano, o que não é preocupante.
Obviamente, em contrapartida, temos um forte lado positivo. Depois do susto de janeiro de 1999, as pessoas e as empresas fugiram de dívidas em moeda estrangeira (na Argentina representam cerca de 85%), nossa economia é mais diversificada e mais competitiva, a situação política mais estabilizada e as potencialidades gerais do Brasil muito mais fortes.
Fayet conclui sua análise, destacando que este ano político será difícil e a bomba que está sendo transferida para o próximo governo é muito grande. Logo, temos de olhar a Argentina e ‘‘colocar as barbas de molho’’, pois os fundamentos de nossa economia estão muito fragilizados.
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