CONSELHO DE ECONOMIA
O mercado mundial de ações foi severamente abalado com uma série de denúncias sobre fraudes e outras manobras, tendo como ponto crítico o episódio da falência da Enron. Neste caso, a empresa de auditoria também fazia a consultoria, provocando um debate sobre novas regras para evitar que a gestão das empresas possa tornar-se uma caixa-preta. Que se pode dizer a este respeito e qual a situação dessas questões no Brasil?
O economista Sérgio Martenetz analisa a situação, destacando que os investidores, em qualquer parte do mundo, são muito afetados pelo fator incerteza. A crise de confiança nos balanços dos grandes conglomerados, detonada pelo caso Enron, está gerando um pesado clima de incerteza quanto à veracidade dos números estampados nos balanços das empresas. Diante disso, os investidores estão retraídos não só em suas operações nas bolsas de valores como, também, nas aplicações em títulos de renda fixa (bonds, notes etc.) emitidos pelas corporações, observa.
Em sua análise, o economista coloca que, realmente, quando além da falida Enron, empresas do porte da Tyco, da Globalcrossing, da Willians, da AOL Time Warner, da GE, e outros gigantes mundiais começam a ser alvo de suspeitas, o clima fica muito tenso e a incerteza espalha-se rapidamente para os mercados financeiros e de capitais de todos os países. Até um vocábulo já foi criado para a situação: Enronite .
Para ele, as firmas de auditoria e consultoria, parceiras das empresas nessa grave crise de confiança, certamente terão de separar as atividades de auditoria das demais, como um primeiro passo na reconquista da credibilidade. Terão de adotar, de imediato, um procedimento semelhante àquele que, há alguns anos, foi adotado pelas instituições financeiras, quando foram forçadas por leis e novos regulamentos a separar as operações de tesouraria das operações dos clientes (Chinese Wall). Além disso, Martenetz afirma que precisarão mostrar que a área de auditoria é realmente desvinculada dos demais interesses da empresa. Se essa separação não for rapidamente executada pelas próprias empresas de consultoria/auditoria, os governos terão de regular a questão, impondo as novas regras, alerta, acrescentando que o problema é que essas iniciativas não podem demorar, pois é todo o mercado que está em pauta.
Martenetz disse que o Brasil, como o resto do mundo, não está livre da enronite. Muitas de nossas empresas hoje pertencem a grandes conglomerados internacionais e a contaminação é inevitável. A desconfiança de lá refletem-se aqui. As auditoras de lá também operam aqui. As bolsas de valores de lá negociam ações (ADRs) de empresas daqui. No mundo globalizado os efeitos se encadeiam, garante.
O economista lembra que o Brasil possui órgãos reguladores eficientes (CVM, Banco Central). Ele acredita que vão agir de forma rápida para evitar um aprofundamento do processo de descrédito. Se não surgirem novos casos de fraudes e as empresas e os órgãos governamentais agirem rapidamente, é possível que a enronite entre em processo de extinção, trazendo confiança aos mercados, conclui.
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