Crise na Argentina e reflexos no Brasil




A crise argentina continua se agudizando, mas alguns analistas dizem que
houve um descolamento# com relação à economia brasileira, afinal, quais as
expectativas para a crise e seus efeitos na economia brasileira?
O conselheiro do Corecon-PR, economista Luiz Antônio Fayet, afirmou que a
expressão ‘‘descolou’’ não passa de um modismo do mercado financeiro e sob
este aspecto a influência da crise na economia brasileira é pequena,
atingindo mais os movimentos dos capitais especulativos. Entretanto, alertou
que para a economia da produção (das empresas e dos empregos) a crise
argentina continuará sendo preocupante. ôA Argentina representa hoje perto
de 8% do mercado para nossas exportações totais, mas para alguns segmentos
como: material de transporte e partes, material elétrico e de comunicações,
produtos metalúrgicos, madeira e derivados, sapatos e carne de frangos, tem
uma significância em termos de valores que é apreciável (perto de 3 bilhões
de dólares). Além disso, o turismo tem grande importância para a região
sul.
Fayet lembrou também que há uma questão maior por vir, fatalmente a crise
desembocará numa desvalorização do ôpeso#, tornando os produtos deles mais
competitivos nas transações externas, determinando substituição de
importações e ampliando exportações, como aconteceu no Brasil depois de
janeiro de 1999. Segundo ele, isto mudará a estrutura dos fluxos comerciais
e a balança de negócios entre as duas economias, de uma maneira difícil de
se prever neste momento. ôMinha torcida é para que eles façam logo o que já
deveriam ter feito há muito, desvalorizar o ôpeso#, controlar as finanças
públicas, retomar o crescimento, reestruturar os fluxos comerciais conosco e
fortificar o Mercosul, que é muito importante para todos nós#.
O presidente do Corecon-PR, economista José Moraes Neto, avaliou que o
quadro político-econômico da Argentina ainda continua nebuloso para uma
análise mais precisa dos impactos do fim da paridade cambial peso-dólar
sobre a economia brasileira. Esses impactos seguramente serão diferenciados
no tempo e por categoria de produtos comercializados entre os dois países.
Ele lembrou que deve-se levar em consideração também o efeito do conjunto de
políticas econômicas adotas pelo novo governo sobre a economia argentina. Se
por um lado isto limita a possibilidade da elaboração de um prognóstico
detalhado e seguro sobre o comércio entre os dois países, não impossibilita,
por outro, que se analise os marcos gerais entre os quais os ajustes destas
relações acontecerão.
No curtíssimo prazo, em razão da moratória e da conseqüente perda de
crédito das empresas argentinas no sistema financeiro internacional, Moraes
explicou que os negócios entre os dois países estão praticamente suspensos,
limitados apenas a pouquíssimos casos onde os contratos se realizam à vista.
Estes negócios podem ser retomados tão logo o mercado financeiro argentino
venha funcionar normalmente e as empresas importadoras argentinas voltarem a
ter acesso ao crédito. Porém, pouco deve está sendo afetado as transações
entre empresas multinacionais que operam nos dois países as quais possuem um
ôcomércio administrado# e possuem canais preferenciais de acesso ao mercado
financeiro internacional.
O vice-presidente do Corecon-PR, economista Norberto Ortigara, disse que a
desvalorização do peso será prejudicial para a agricultura brasileira,
especialmente a paranaense. De acordo com ele, as culturas que poderão ser
afetadas são milho, batata, cebola e feijão preto e ainda o setor de
lácteos. ‘‘A mexida de câmbio tornará a Argentina mais competitiva no
mercado. Para não haver prejuízos maiores a desvalorização da moeda
argentina deverá ficar entre 30% e 40%, além desse limite a agricultura será
prejudicada’’, destacou. Provavelmente, explicou, o país vizinho deverá
também reduzir a importação de produtos brasileiros.
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