Pela quinta vez consecutiva neste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou, na última quarta-feira, o juro básico em 0,75 ponto percentual, passando de 18,25% para 19%. Economistas, que atuam em áreas diferenciadas da economia, analisam os impactos que a medida vai provocar na economia brasileira.
O presidente do Conselho Regional de Economia, José Moraes Neto, afirma que a elevação de 0,75 ponto percentual nos juros terá um acréscimo anual de US$ 4,5 bilhão no total da dívida do setor público brasileiro - hoje em torno de US$ 600 bilhões. ‘‘Esse é o tamanho dos cortes dos gastos públicos e aumento da receita que o governo terá que promover para manter o equilíbrio das contas públicas, acertado com o FMI’’, o que promoverá um grande impacto recessivo. Por outro lado, destaca que esse aumento dos juros vai refletir nos custos de produtos industriais das empresas, ‘‘que num primeiro momento podem até não repassar essa elevação para os preços, mas, certamente, o farão a médio prazo’’, adverte.
Outra consequência negativa apontada por Moraes se refere ao crédito ao consumidor. ‘‘Tem crescido muito o nível de inadimplência das famílias, bem como a devolução de cheques sem fundos. Com a recessão, aumento de juros e da inadimplência, as empresas irão diminuir o número de parcelas de financiamento, o que elevará o valor das mesmas, excluindo grande parte de brasileiros do mercado comprador agravando a recessão.’’
Ele entende que as medidas governamentais deveriam ser no sentido de estimular as exportações, diminuir a dependência de capital externo para financiamento da economia brasileira e promover o crescimento econômico, o que minimizaria os problemas financeiros do setor público.
Para Luiz Antônio Fayet, consultor de empresas, a decisão da equipe econômica terá consequências inflacionárias. ‘‘A elevação dos juros básicos afeta o crescimento da economia, que já está ruim, e não altera os juros para as pessoas físicas que pagam dez vezes mais do que isso.’’ O economista afirma que os reflexos serão negativos também para a dívida do governo que já supera os 55% do PIB.
Fayet registra que o aumento promovido pelo governo vai beneficiar apenas os donos de dinheiro e prejudicar empresas, empregos e empregados. Afirma que a elevação dos juros não altera significativamente a alta do dólar, ‘‘que vai continuar’’, avisa. Além disso, a decisão do Copom aumentará a inadimplência em geral e prejudicar a competitividade dos produtos brasileiros, observa.
Finalizando, Fayet garante que ‘‘trata-se de mais uma prova de que os fundamentos da economia estão ruins e de que a equipe econômica não tem competência para gerir a economia nacional’’.
A decisão do Copom tem como objetivo segurar a cotação do dólar em patamares aceitáveis e evitar um crescimento ainda maior da inflação. A opinião é do economista Sérgio Martenetz. Segundo ele, a meta de inflação, medida pelo IPCA, é de 4%, podendo ficar 2% acima ou abaixo deste objetivo. De janeiro a junho o IPCA acumulado ficou em 2,96%, ou seja, em apenas seis meses quase atingiu a meta do ano inteiro. ‘‘O que aconteceu é que quando o dólar sobe, os insumos importados, como plásticos, gasolina e componentes eletrônicos, ficam mais caros, pressionado a inflação para cima’’, explica.
Martenetz também salienta que o governo com a alta dos juros pretende evitar a saída de recursos alocados no mercado financeiro do País. ‘‘Isso implicaria em perda de reservas cambiais, aumento do risco de crédito e consequente pressão sobre a taxa de câmbio’’. Já no âmbito interno, como em qualquer cenário de alta de juros, o economista avaliou que os empréstimos para as pessoas e empresas se tornam mais caros, inibindo o consumo e a produção e desacelerando a economia. E enfatiza que ‘‘o próprio governo sofre com o aumento dos juros já que o custo de rolagem da sua dívida interna se eleva’’.
Na avaliação do supervisor técnico do Dieese-PR, Cid Cordeiro, a medida do Banco Central não pode ser vista isoladamente. Nos seus cálculos, o aumento de 0,75 ponto percentual gera um acumulado, de março a julho, de 3,75% de elevação nas taxas de juros básicos. ‘‘A decisão protela investimentos, desaquece a economia e afeta o nível de emprego’’, diz. De acordo com ele, a alta dos juros terá um impacto muito maior na atividade econômica das empresas do que a medida de racionalização da energia.
Além disso, o próprio governo vai sentir os reflexos de sua medida. ‘‘A atitude provocará aumento significativo na dívida pública e se tornará um freio no crescimento do PIB, estimado em 4% a 5% em 2001, mas tudo indica que não ultrapassará os 3%.’’
* Material distribuído pelo Corecon

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