CONSELHO DE ECONOMIA
Recentemente acendeu-se uma acalorada discussão política sobre o PIB (Produto Interno Bruto) do Paraná. Evidentemente, as correntes governistas falando em números estratosféricos, enquanto os técnicos e os adversários, contestando e colocando os números reais.
Reduzindo a questão à desapaixonada realidade técnica, temos a dizer que por definição, o PIB, segundo José Paschoal Rossetti em sua obra Introdução à Economia: exprime o valor da produção, a preços finais de mercado, realizada dentro das fronteiras geográficas do país.
Desta forma, o PIB do Paraná seria a soma dos valores agregados da produção agrícola, industrial, transportes, comunicações, ensino, serviços funerários, comércio, serviços médico-hospitalares, ambulantes, etc., etc.
As metodologias de avaliação do PIB procuram formas de correlações físicas (quantificações), mas sempre são expressas em valores monetários para facilitar análises e comparações. Por esta razão, os dados do PIB brasileiro são geralmente colocados em Dólares ou Reais.
Entretanto, para fazer comparações os dados necessitam de tratamentos corretivos, para evitar distorções, como ocorre no caso dos efeitos inflacionários. Tais correções são geralmente chamadas de expurgos.
Consultando os dados disponíveis, encontrei nas Contas regionais do Brasil, elaboradas pelo IBGE/Ipardes, a seguinte tabela:
PIB do Brasil e Paraná a preço de mercado corrente 1994-2000
Anos - PIB - - - Participação - Variação Real Anual -
Moeda - Brasil - Paraná - % PR/BR - Brasil (%) - Paraná (%)
1994 - R$ Milhão - 349.205 - 21.304 - 6,10 - 5,85 - 5,51
1995 - R$ Milhão - 646.191 - 38.369 - 5,94 - 4,22 - 1,78
1996 - R$ Milhão - 778.886 - 47.720 - 6,13 - 2,66 - 7,24
1997 - R$ Milhão - 870.743 - 52.849 - 6,07 - 3,60 - 0,89
1998 - R$ Milhão - 913.735 - 56.766 - 6,21 - -0,12 - 5,30
1999 - R$ Milhão - 960.858 - 62.579 - 6,51 - 0,79 - 1,32
2000 - R$ Milhão - 1.059.250* - 70.314* - 6,64 - 4,00 - 6,00
Fonte: Contas Regionais do Brasil - IBGE/Ipardes
Nota: (*) Estimativas - extrapolação utilizando as taxas de crescimento real estimadas e as metas para o IPCA.
A tabela anterior coloca o PIB do Brasil e do Paraná a preços correntes, o que em economês quer dizer, sem expurgos, sem descontar os efeitos inflacionários. Registra também que nosso PIB nos últimos 15 anos, tem correspondido a aproximadamente 6% do brasileiro.
Em dezembro/2000 elaborei para o Sindimetal - Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Estado do Paraná, uma avaliação das tendências da economia paranaense para 2001, denominado Paraná - acelerado no novo milênio (aqui publicado em janeiro de 2001), registrando as importantes transformações ocorridas especialmente no setor industrial, com ênfase à relocalização da indústria automotiva brasileira, que adicionada a outros fatores, induzia ao entendimento que nosso PIB deverá crescer de maneira levemente superior ao do Brasil. Quanto a este fato, vale registrar que o Paraná representava 0,9% da produção automobilística nacional em 1998 e saltou para mais de 8% em 2000, mas com tendência crescente na participação.
Aliás, as conclusões são semelhantes as da excelente nota técnica Economia Paranaense: panorama de 2000 e cenários para 2001, de autoria do Ipardes.
Entretanto, estas boas perspectivas poderão ser frustradas, pois o governo paranaense tem anunciado muito e realizado pouco no reforço da infra-estrutura de transportes (porto, aeroportos, ferrovias e rodovias).
Sintetizando, entre os profissionais de economia não existem divergências sobre o crescimento de nosso PIB, e nem, que ele deverá ter uma taxa de crescimento levemente superior à brasileira.
Mas na virada do ano uma euforia desmedida tomou conta das autoridades paranaenses e até o próprio governador afirmou que nosso PIB cresceu 230% durante o seus seis anos de gestão.
É evidente que o governador deve ter sido vítima de informações erradas que lhe passaram, pois os dados oficiais do próprio Ipardes desautorizam tal hipótese.
A ser verdade a informação, como a participação percentual do Paraná no Brasil tem permanecido muito estável, o País também teria crescido 230%, um absurdo. As a taxas de crescimento do PIB foram as seguintes:
Crescimento (%) real anual e acumulada do PIB do Brasil e Paraná 1994-2000
Períodos - 1994 - 1995 - 1996 - 1997 - 1998 - 1999 - 2000 - Acumulada (%) -
Brasil - 5,85 - 4,22 - 2,66 - 3,60 - -0,12 - 0,79 - 4,00* - 28,62 -
Paraná - 5,51 - 1,78 - 7,24 - 0,89 - 5,30 - 1,32 - 6,00* - 34,24 -
Fontes: Contas Regionais do Brasil - IBGE/Ipardes.
Nota: (*) Estimativas para o Brasil e Paraná.
O único documento que encontrei, embasando a afirmação governamental, foi uma nota da Secretaria de Planejamento. Nesta nota, consta uma sutil observação sobre o valor do PIB, a preços correntes.
Para os leigos na matéria a colocação pode parecer natural, mas para economistas é uma heresia, pois para evitar distorções as apresentações devem ser feitas a preços constantes, pelo menos expurgando a inflação.
Se não descontássemos a inflação no fornecimento desse tipo de dado, poderíamos chegar ao cúmulo de num país onde a inflação fosse de 100% num mês, festejar a duplicação do PIB em um só mês, mesmo que mantendo inalterada a produção física.
Como economista e conselheiro de órgão da classe, sou obrigado a fazer esses registros, pois não é de duvidar que brevemente alguém queira patentear a invenção.
De maneira isenta tenho registrado as boas perspectivas de crescimento do PIB do Paraná, mas da mesma maneira não posso aceitar que se induza o Chefe do Governo a um erro que o ridiculariza perante os círculos econômicos. Nas próximas vezes conviria observar trabalhos técnicos como os do Ipardes, que aliás, resiste heroicamente para não transformar-se em instrumento de manipulações.
O PIB do Paraná não cresceu 230% em seis anos, mas a dívida pública e o comprometimento das finanças estaduais cresceram mais que isso. Mas pior, a dilapidação do patrimônio público e o sucateamento operacional do Estado cresceram mais ainda.
Responsável: economista Luiz Antonio Fayet, consultor de empresas, membro do Conselho Regional de Economia do Paraná, foi deputado federal e presidente do Banco do Brasil.
e-mail [email protected]/Site www.fayet.com.br





