A nova ordem mundial com a formação de grandes blocos econômicos traduz a busca pela integração de mercados, visando melhores condições às suas economias como um todo, aumentando suas vantagens comparativas e proporcionando maior participação no comércio internacional. Em tese tudo bem. Porém para competir com subsídios anuais da ordem de 300 bilhões de dólares, que os países desenvolvidos dão aos seus agropecuaristas, o produtor brasileiro ainda não encontrou ‘‘tecnologia eficiente e competitiva’’.
Ocorre que o intercâmbio comercial mundial detém um forte conteúdo protecionista, agravadas com as freqüentes criações de barreiras sanitárias à importação e ainda os subsídios à exportação. A inserção do Brasil no mercado globalizado se deu nesse cenário, configurando uma concorrência perversa.
Os preços internacionais mostram nos anos recentes uma trajetória decrescente quando trazidos para valores corrigidos. Mais precisamente a partir de 1997, com a crise econômica mundial, deflagrada na Ásia e que atingiu a Rússia em 1998, com sérios efeitos na economia mundial e que conduziram o Brasil à necessidade de promover alterações na política cambial.
As cotações das principais commodities no mercado internacional, ainda situam-se abaixo dos preços históricos, mas subsídios nos Estados Unidos e outros países ricos garantem para seus produtores um ‘‘guarda-chuva’’ aos preços da soja, milho e trigo.
Os preços atuais, devidamente corrigidos para a base de 1999, revelam que a soja era vendida a US$ 482,00 /tonelada em 1970, US$ 426,00/t em 1980 e atualmente situa-se em torno de US$ 187,00/tonelada. Ao analisarmos o milho, tem-se que o preço caiu de US$ 241,00/tonelada em 1970 para cerca de US$ 82,00/tonelada. A queda dos preços internacionais é em suma, resultante da incorporação de novos processos de produção em função da disseminação de novas tecnologias de insumos e de processos, cumulativamente pressionados pelos subsídios.
PREÇOS INTERNACIONAIS DE PRODUTOS AGRÍCOLAS
(US$ constante de 1999/tonelada)
Produto 1970 1980 1990 1999
Soja 482,68 426,14 355,07 20l,67
Trigo 226,68 248,46 140,32 112,00
Milho 241,13 180,27 113,19 90,20
Café (kg) 4,73 4,98 2,04 2,29
Açúcar 338,58 908,68 286,55 138,10
Fonte: Banco Mundial - Global Commodity Market, April 2000, nº 2
Os fatores que influenciaram o mercado brasileiro em 1999 foram múltiplos, mas a tônica foi a desvalorização cambial efetuada em janeiro do mesmo ano e sua repercussão nos preços e custos de produção.
Nesses anos de abertura comercial, onde nenhuma salvaguarda foi dada ao produtor, este ficou à mercê, tendo que sobreviver somente com os ganhos de produtividade.
Em 2.000, a conjuntura da economia nacional continuou dando sinais de recuperação, propiciando condições favoráveis para o mercado dos agropecuários.
O desempenho dos preços dos principais produtos agrícolas, mostrou-se favorável, com valores médios superiores aos de 1999, não obstante as dificuldades de financiamento da safra e do aumento nos preços dos insumos, que impactam mais fortemente a cultura de milho do que a de soja.
O milho, um dos principais produtos da agropecuária paranaense, obteve preços médios superiores a R$ 10,00/saca, bem acima da média histórica e dos patamares de 1999, como resultado do complicado quadro de abastecimento, acentuado pelas perdas sofridas devido as intempéries. Os produtores de milho devem manter-se atentos as movimentações do mercado e programar-se para efetuar as vendas nos períodos de repique de preço e também nas possibilidades de exportação de milho para a Europa e Japão. As cooperativas já vem efetuando exportações do grão para a Espanha, no esforço de conquistar estes mercados.
No caso da soja, com o ajuste cambial os preços internos tornaram-se mais atrativos e cerca de 12% superiores ao ano de 1999, com média de R$ 17,05/saca de 60 kg, levando uma grande parte dos produtores a aproveitar o período de recuperação nos preços e a realizar negócios antecipadamente. Assim, a liquidez do mercado de soja se deu pelos preços favorecidos, mas o do milho foi resultado da baixa de estoques.
Agora surge um fato novo, a União Européia proibiu por seis meses do uso de farinhas de carne e de osso, na composição da ração para todos os tipos de animais. Tal decisão faz parte de um conjunto de medidas para combater a doença conhecida como a síndrome da vaca louca.
Estima-se que isto determine um aumento no consumo de farelo de soja na União Européia, de mais 2,8 milhões de toneladas. Este volume poderá crescer para mais 4,0 milhões de toneladas com a adesão dos países do Leste Europeu, ao movimento. As medidas já repercutiram nos preços do mercado futuro.
O Brasil é o segundo produtor mundial de soja e responde por 19% do total mundial e tem, nos países europeus seu principal mercado, os quais absorvem cerca de 70% da soja em grão e farelo que exportamos.
Há um outro fato importante, a questão dos transgênicos, ou produtos geneticamente modificados, que vem sendo amplamente discutida em todos os países e incorpora aspectos das políticas alimentar, de saúde e de meio ambiente, contendo ainda forte grau de interesse econômico.
A Europa como um todo e o Japão, mantém resistência aos transgênicos. Tal posicionamento reside no fato de não existir, segundo eles, em nível mundial, uma certificação, uma validação que os produtos transgênicos não causam danos à saúde e ao meio ambiente.
O Brasil como único grande produtor mundial de soja não transgênica, tem de ficar de olhos abertos, pois não pode perder este imenso mercado, onde a concorrência Americana e Argentina não entram.
Gilda M.B.Borges - Economista da FAEP, registrada no CORECON/PR

mockup