CONSELHO DE ECONOMIA
Em meados de 1999, envolvi-me num estudo para melhorar as condições de comercialização de frutas no Paraná. O objetivo era desbravar uma nova alternativa para a sobrevivência de mais de 300.000 pequenas propriedades rurais do estado, com área inferior a 50 ha, pois enquanto um hectare de produção de uvas dá trabalho e sustento para uma família, com soja, seriam necessários 40 hectares.
Trabalhando duramente, construímos um programa chamado HORTIQUALIDADE-PARANÁ, compreendendo uma parceria entre a Secretaria da Agricultura, a FAEP, o SEBRAE e a OCEPAR, para cuidar dos produtos hortícolas em geral e colocamos as idéias em prática.
Recompusemos a base de dados de produção, nos articulamos com as instituições locais e, procuramos saber o que se fazia neste ramo em outros lugares do Brasil.
Felizmente nos deparamos com um criterioso e amplo trabalho que a CEAGESP desenvolvia há uns 3 anos em São Paulo. Imediatamente estabelecemos uma proveitosa parceria.
Em janeiro deste ano, iniciamos a implantação do nosso Programa, baseado no escritório operacional instalado na CEASA-Curitiba. Repetindo a metodologia da CEAGESP, os trabalhos compreendem uma ampla verificação dos produtos que por lá passam, especialmente: origem, qualidade, embalagem, rotulagem, destino, preços, etc.
Tanto esses dados bem como os modelos de classificação já desenvolvidos, vão sendo transferidos para todos os agentes envolvidos na cadeia comercial. Adicionalmente, também de forma gratuita, são oferecidos treinamentos para os operadores do sistema se adequarem aos novos padrões tecnológicos exigidos pelos mercados.
Entretanto, é surpreendente observar que alguns dados têm passado desapercebidos de todos nós que lidamos com a economia brasileira, tais como: 1/3 do FLV (frutas, legumes e verduras) colhido nas lavouras brasileiras, se perde; o valor de produção de FLV no Brasil é semelhante ao dos grãos (soja+milho+trigo+arroz), 19 bilhões de reais em 1999; o mercado internacional entre países em 1999, só de frutas, está estimado em 50 bilhões de dólares, sendo medíocre a participação brasileira que chegou perto de 0,3 bilhão; somente esse mercado é maior do que o total das exportações brasileiras em 1999, 48 bilhões de dólares e; que mais de 80% da produção mundial de frutas ocorre no hemisfério Norte, nós do Sul somos pequenos nesse contexto, mas entramos com as nossas produções na entresafra deles, o que neste segmento é comercialmente muito importante.
Além desses dados, vale lembrar que o Brasil, com seus 160 milhões de habitantes, tem um imenso potencial de mercado. É claro que hoje com uma renda por habitante/ano, da ordem de 3.500 dólares (Argentina 8.000, EUA 28.000 fonte: BIRD), o consumo é muito baixo e desqualificado, mas por isso mesmo representa uma grande oportunidade futura, especialmente considerando nossa grande população.
Enquanto aqui no estado, o Programa mobiliza produtores, empacotadores, transportadores, armazenadores, comerciantes, restaurantes industriais, bolsas, faculdades, e outros tantos segmentos de nosso estado, fornecendo informações e treinamentos gratuítos, lá em Brasília, junto com as equipes do Ministério da Agricultura e da CEAGESP, trabalhamos firme para iniciar uma revisão das normas oficiais de classificação, embalagem e rotulagem para 11 frutas.
A expectativa é de que as novas normas para uvas e abacaxis sejam emitidas ainda neste ano, com prazos de aproximadamente 6 meses para a vigência. A estratégia será a de regulamentar produto por produto, de maneira que os novos padrões de comercialização, permitam uma assimilação gradual e cautelosa de todos os agentes envolvidos na cadeia comercial.
É importante registrar que os novos padrões estão sendo desenvolvidos, de acordo com os do Mercosul e dos principais mercados internacionais, desta maneira, à medida que se melhorem os padrões da comercialização interna, automaticamente estaremos nos habilitando a fatias crescentes dos mercados internacionais, inclusive através sistemas eletrônicos de vendas.
Adicionalmente, ao evitar o passeio de produtos e a consequente redução das perdas, estaremos agregando vantagens para todos os elos da cadeia, que passarão a trabalhar com bens valiosos e não com lixo. Entretanto, o mais importante é que começaremos a aproveitar intensamente os benefícios de um imenso tesouro da economia até hoje quase inexplorado, que abrirá uma grande frente de oportunidades de empregos e negócios. Vale a pena conhecer e estar atento ao tema.
LUIZ ANTÔNIO FAYET é consultor de empresas, membro do Conselho Regional de Economia/Paraná, ex-deputado federal e ex-presidente do Banco do Brasil
E-mail: [email protected]
Site: www.fayet.com.br





