Conjuntura econômica no fim do milênio - Luiz Antonio Fayet
ANÁLISE
Conjuntura econômica
no fim do milênio
Luiz Antonio FayetA economia brasileira voltou a respirar. A desvalorização do real e a drástica redução dos juros estão permitindo que os negócios se reativem, especialmente pela substituição de importações e o aumento das exportações. É óbvio que depois de quatro anos de massacre, nossa economia não tenha forças nem estrutura para reagir com mais velocidade.
Mas vejamos alguns aspectos:
- Cambio A livre flutuação do cambio, embora os solavancos naturais de seus primeiros momentos, permitiu estancar uma parte da hemorragia de divisas.
Não fora a alteração cambial e, especialmente, o susto provocado por cotações, que chegaram a atingir 2 reais por dólar, o saldo comercial negativo deste ano chegaria próximo de 10 bilhões de dólares, quase 2% do PIB.
Com o novo cambio, nossas vendas reagiram violentamente. substituímos um grande contingente de importações, mas lastimavelmente as cotações internacionais dos nossos exportados estavam e estão muito baixas.
Até setembro/99, exportamos um volume físico 16% maior que no mesmo período de 1998, mas recebemos 30% a menos em dólares. O quadro abaixo retrata esta realidade.
Neste contexto, preocupa-me o fato de que a nova administração do Banco Central venha cedendo às pressões do Palácio do Planalto, fazendo intervenções baixistas no cambio, para segurar, outra vez artificialmente, o preço do dólar. É seu único erro até agora.
As atuais cotações, em torno de R$ 1,85 por dólar, descontada a inflação, significa R$ 1,75, o que já acende o sinal de alerta, primeiro por que as contas externas brasileiras sugerem que o cambio deveria estar em torno de 2 por 1. Segundo, por que não é fácil, nem rápido e nem barato, reabrir canais de comercialização. Consequentemente, nossa moeda precisaria estar bem mais desvalorizada para compensar todos estes sacrifícios e custos. Nos casos de ôprodutos técnicos, como as autopeças, muitas vezes gasta-se um ano para as homologações tecnológicas , para depois, então, discutir preços e garantias de fornecimento.
Mesmo assim, não fossem as cotações de preços internacionais deprimidos, teríamos registrado saldo positivo em 1999.
Um ponto que me preocupa é o ajuste que a Argentina terá de fazer na sua economia, pois não se pode prever prá que lado vão atirar, entretanto, uma coisa é certa: terá reflexos em nossa economia.
- Juros - O novo Banco Central vem administrando com maestria esta questão. Os juros primários já baixaram no limite do razoável. A partir de agora é esperar, pacientemente, a redução dos buracos nas contas do governo, a maior reativação da economia, com a consequente redução da inadimplência e a queda da tributação sobre as operações financeiras.
É lógico que o custo do dinheiro influi na dinâmica da economia, mas o decisivo, mesmo, é a existência de mercado, que num primeiro momento depende das exportações e das substituições de importados.
A taxa de juros está paulatinamente deixando de inibir negócios.
-Inflação - Os índices de elevação dos preços, atingidos neste ano, não surpreenderam. Imaginei até que poderiam passar dos 10%, pois muitas ações do governo estimularam os preços. Primeiro foi a inflação represada artificialmente, para atender objetivos eleitoreiros, que enfim começou a aparecer. Segundo foram os efeitos do reajuste cambial, previsivelmente modestos. Terceiro o brutal aumento da carga tributária, destinado a cobrir a gastança governamental, estima-se impactou em mais de 3% os preços em 1999. Finalmente, quarto, o violento aumento das chamadas tarifas públicas (energia, combustíveis, telecomunicações, etc.), feitas para atender as empresas estrangeiras que estão comprando estes setores.
Se o governo não inventar nenhuma nova moda, é previsível que os aumentos de preços no próximo ano fiquem abaixo de 10%.
Claro que esta previsão tranquilizadora considera que o governo efetivamente tome providências para ajustar suas contas e, vá diluindo no tempo a imensa dívida interna, que gira em torno de metade de nosso PIB. Esta é a grande ameaça. A aprovação de uma lei de responsabilidade fiscal, para impor limites nos gastos públicos, seria um passo importante.
Crescimento - A melhoria do nosso desempenho na competição internacional, e a melhoria dos preços dos nossos produtos de exportação, deverão se constituir na alavanca da retomada do crescimento. Alguns setores já mostram a reativação. Não arrisco a estimar números, mas o quadro internacional apresenta-se mais favorável e a maturação de negócios mais complexos começará a frutificar. Consequentemente, deveremos iniciar o novo milênio em fase de crescimento econômico, com tendência de redução do desemprego, mas ainda com um grande desconforto social.
Neste quadro vale registrar, que o Congresso tem feito um esforço muito positivo para fazer as reformas necessárias.
Quem tem feito tudo para atrapalhar, é o poder executivo.
LUIZ ANTONIO FAYET é membro do Conselho Regional de Economia-Paraná, foi Deputado Federal e presidente do Banco do Brasil
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