Conflito põe em xeque futuro do Mercosul
Agência Estado
De São Paulo
O Mercosul sobreviveu, nas últimas duas sema nas, ao teste mais duro desde sua criação, mas o futuro da integração regional continua nebuloso. O comércio no interior do bloco foi multiplicado por cinco nos anos 90. Aumentou a dependência comercial entre os quatro sócios, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. No entanto, a grande expansão do intercâmbio regional pode estar batendo no teto. Com a recessão, diminuíram neste ano as trocas entre as duas maiores economias do bloco, a brasileira e a argentina. A melhora da economia poderá reacender o otimismo, no próximo ano, mas será preciso mais que isso para converter o Mercosul num sucesso duradouro. Para isso, o comércio do bloco terá de crescer para fora muito mais velozmente do que nos anos 90.
Esse é basicamente o raciocínio do secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), embaixador José Botafogo Gonçalves. Uma agenda positiva para o Mercosul, segundo ele, deveria ir muito além dos objetivos internos do bloco - finalização da união aduaneira, ainda imperfeita, harmonização de políticas econômicas e constituição de um mercado comum. Seria preciso incluir nessa agenda formas de cooperação, entre setores ou empresas, para expansão conjunta sobre outros mercados.
Especialização, complementação industrial e cooperação técnica são algumas das formas conhecidas de obter ganhos de eficiência e de escala. A indústria automobilística, ao dividir as linhas de produção entre Brasil e Argentina, de alguma forma aponta um caminho, observa o embaixador.
Desde o início do Mercosul têm circulado idéias desse tipo. Para alguns economistas e diplomatas, o bloco regional deveria ser sobretudo uma plataforma para a expansão dos associados. A criação de um amplo mercado - só Brasil e Argentina representam cerca de 200 milhões de pessoas - deveria ser um atrativo para investidores e uma oportunidade para ganhos de escala e de produtividade. Além disso, a associação entre países da região deveria permitir uma participação mais efetiva em negociações internacionais.
Isto vem sendo comprovado nas discussões da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e nos contatos para acordo comercial com a União Européia. Mas o crescimento comercial do bloco foi excessivamente voltado para dentro. Hoje, mais de 12% das exportações brasileiras vão para o Mercosul. Cerca de 35% das vendas externas uruguaias vão para o Brasil. O mercado brasileiro tem absorvido, ainda, uns 30% das exportações argentinas. O Paraguai negocia principalmente com os vizinhos. Esse comércio foi afetado este ano, pela crise, mas a mudança será temporária, se nenhuma alteração de estratégia ocorrer.
Há uns quatro anos, o Banco Mundial produziu um estudo polêmico sobre o Mercosul. Segundo essa análise, o bloco estava ocasionando um claro desvio de comércio. Em outras palavras, estava criando trocas internas sem aumentar os demais fluxos. O estudo foi criticado na época, pelos governos do Mercosul, e talvez contivesse algum exagero. Hás muito mais gente disposta, hoje, a reconhecer a correção daquele estudo.
Algum desvio de comércio é natural, e até positivo, nos primeiros tempos de um bloco, diz o embaixador Botafogo. O erro é acomodar-se à nova situação. Esse erro explica, em parte, o acirramento dos conflitos comerciais na região. A mudança cambial brasileira, apontada por argentinos como fonte de problemas comerciais, é sobretudo um pretexto. De fato, uma recessão nas principais economias do bloco teria um impacto muito forte sobre todas as economias, por causa da enorme dependência mútua.
Nenhum desses fatos diminui a importância dos problemas políticos surgidos nos últimos tempos. Nas últimas semanas, a divergência mais importante foi sobre a adoção, pelo governo argentino, de medidas de salvaguarda consideradas incompatíveis, pela diplomacia brasileira, com as normas de uma zona de livre comércio ou união aduaneira.
A mais grave dessas ameaças foi eliminada. Continua em vigor, no entanto, uma salvaguarda contra têxteis, assunto em debate no Mercosul e sujeito a exame na Organização Mundial do Comércio. Conflitos desse tipo ocuparam os diplomatas do bloco, na Quinta e na Sexta-feiras, numa reunião extraordinária em Montevidéu. Algo foi feito, no encontro, para reforçar a integração a longo prazo.
Vão começar no dia 18, enfim, as discussões técnicas para a harmonização das políticas econômicas. Mas nada disso dispensa a consideração de uma problema básico: o Mercosul deve ser considerado um objetivo fechado em si ou uma base para a expansão dos sócios, num mercado mundial cada vez mais integrado?





