Conexão Miami (Ednelson Alves)

Importação de mão-de-obra
Os Estados Unidos vivem hoje na contramão da economia mundial. Enquanto os países da Europa, da Ásia e de outras partes do mundo lutam para diminuir a taxa de desemprego, a poderosa indústria de informática americana faz lobby junto ao governo porque precisa de licença para contratar mão-de-obra de outros países. A cada ano, segundo disse no Congresso T.R. Rodgers, presidente da Cypress Semiconductor, de San Jose, Califórnia, são criados 130 mil empregos no setor de alta tecnologia do país e não há profissionais gabaritados em quantidade suficiente para suprir essa demanda. A atual lei especial em vigor permite que as empresas tragam até 65 mil trabalhadores qualificados por ano, entre engenheiros e projetistas de software, mas esse número ainda não atende ao crescimento do mercado.Ameaça às empresas
‘‘A verdade é que os Estados Unidos simplesmente não estão produzindo profissionais da área de informática o suficiente para atender ao ritmo de criação de novos empregos’’, queixou-se Rodgers, no Congresso, aos deputados e senadores quando pediu a mudança da lei para facilitar a vinda de estrangeiros.‘‘O sangue vital de nossa indústria não é o equipamento capital, mas capital humano. Se essa escassez de mão-de-obra continuar, seria como se os Estados Unidos ficassem sem o minério de ferro durante a revolução industrial’’, comparou Michael Murray, vice-diretor de recursos e administração da Microsoft, em Redmond, Estado de Washigton. Microsoft, 2.000 vagas
Murray disse que sua companhia só conseguiu preencher metade dos 4.200 empregos criados durante o exercício de 1997. A senadora pela Califórnia, Dianne Feinstein, pronunciou-se favorável ao aumento temporário da cota de trabalhadores, mas justificou que a longo prazo a solução com a melhoria no sistema educacional e o aumento no número de engenheiros americanos. Alguns empresários chegaram a dizer que estão sendo forçados a transferir parte da operação de suas empresas para a Grã-Bretanha, Irlanda ou Índia para compensar a falta de mão-de-obra.Disney importa
O setor de turismo, principalmente na região da Flórida Central, tem encontrado dificuldades para contratar trabalhadores. A cada grande inauguração são milhares de novas vagas, e Orlando ou mesmo as cidades vizinhas não têm como preencher. Até o dia 22 de abril, quando será inaugurado o Animal Kingdon, a Disney precisará de 2.500 funcionários apenas nesse complexo. Para contratar o pessoal necessário a megaempresa de turismo tem ido a lugares distantes. Sua última investida foi na cidade de El Paso, no Texas, onde uma fábrica fechou deixando 700 pessoas sem trabalho. Mas isso não é o suficiente. Tanto que a companhia está importando pessoal de Porto Rico, Brasil e até da África para trabalhos temporários de alguns meses.Demissões na Ásia
Durante a reunião dos países ricos realizada em Londres, Michel Hansenne, diretor-geral do Escritório Internacional do Trabalho (BIT), anunciou que mais de 2 milhões de trabalhadores assalariados já foram mandados embora somente na Tailândia e Indonésia. Ele prevê que serão cortados, durante este ano, pelo menos 5 milhões de empregos nos dois países. Na Coréia do Sul, o presidente Kim Dae Jung disse que, por conta da crise, um milhão de empregos serão cortados em seu país. Preocupado com essa situação, o diretor do BIT alertou sobre o risco de ocorrer uma instabilidade social e política na Ásia. Alca: EUA mudam estratégia
Durante reunião que será realizada em abril em Santiago, no Chile, os presidentes dos países do continente americano vão lançar as bases para as negociações formais sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). A grande novidade é que o país mais interessado na antecipação da abertura comercial do Alasca à Terra Fogo, no caso os Estados Unidos, não poderá negociar com força total porque o Congresso não deu aval à Casa Branca na chamada via rápida, ou ‘‘fast-track’’. Em consequência disso, o presidente Bill Clinton está preparando estratégias para não voltar do Chile sem nenhum avanço que beneficie os Estados Unidos. A saída para o presidente será propor uma negociação por etapas, incluindo nessa pauta temas como propriedade intelectual, concorrências públicas, serviços e o surrado acordo de combate às drogas na região.Questão de valores
Com os números do Departamento do Comércio em mãos só aumentou a decepção de Clinton e seus assessores contra o Congresso, que não lhe concedeu meios para negociar. É que no ano passado o México superou até o Japão e comprou US$ 71,4 bilhões dos Estados Unidos, ficando atrás apenas do Canadá; os EUA exportaram mais em 97 para o Brasil (US$ 15,9 bilhões) do que para a China (US$ 12,8 bilhões); para a Argentina as vendas totalizaram US$ 5,8 bilhões, enquanto para a Índia ficaram em US$ 3,6 bilhões; as exportações para o Chile atingiram US$ 4,4 bilhões, superando a própria Rússia que comprou US$ 3,3 bilhões. Os números mostram claramente a grande importância da América Latina para os interesses dos EUA, principalmente porque a crise levará retração ao comércio com a Ásia, e a Europa vive um período de importantes definições internas com a criação da moeda única. Relação de iguais
Como membro importante de negociação do Chile, país que será o anfitrião do encontro para discutir a ALCA em abril, o ministro do Exterior daquele país, José Miguel Insulza, fez a seguinte declaração sobre o livre comércio nas Américas: ‘‘As negociações comerciais podem começar sem a via rápida. Não queremos doações ou assistência ao desenvolvimento da parte dos Estados Unidos. O que queremos é uma relação madura entre iguais, e um acordo de comércio internacional que beneficie toda a região’’. Mas enquanto o atraso no processo da ALCA sempre interessou aos países do Mercosul que querem estar abertos para outros mercados, o Chile sempre quis sair na frente nos negócios bilaterais com os EUA. Isso só não ocorreu porque o Congresso americano vetou esse acordo depois da crise do México no final de 94. Quando fala em relação de iguais e benefício para todos, o ministro chileno refere-se aos recentes problemas que o seu país enfrentou para exportar pescados para os Estados Unidos. Flórida vai por conta
O Brasil é o maior parceiro da Flórida, e Miami um verdadeiro centro do comércio latino-americano. A aceleração da Alca é tudo o que os empresários e o governador Lawton Chiles querem que aconteça, com a máxima urgência. Em recente reunião em Miami eles fizeram uma leitura do quadro, e sentiram que esperar o ritmo de negociação da Casa Branca pode significar um enorme prejuízo. Foi então que a Flórida decidiu caminhar por conta própria. Com o apoio das Câmaras de Comércio binacionais, os empresários começaram a visitar os países da região em busca de parceiros comerciais na base do salve-se quem puder.

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