Conexão Maimi (Edinelson Alves - Correspondente dos USA)
CHOQUES DO MERCOSUL
Os Estados Unidos estão interessados em qualquer negócio para inviabilizar o Mercosul e fechar o Acordo de Livre Comércio das Américas - Alca. Só um choque de interesses entre Brasil e Argentina, os dois principais países do acordo do Cone Sul, poderia frear esse processo de intercâmbio regional. A tese norte-americana é de que o Brasil quer prorrogar o Alca, justamente para priorizar os seus interesses - como se os EUA não quisessem fazer exatamente o contrário, viabilizar o Alca, pensando unicamente em seus interesses próprios. O fato novo nessa briga comercial é que cresce na Argentina, principalmente entre economistas e especialistas em comércio exterior, a tese de que, estrategicamente, o Brasil leva grande vantagem sobre o seu principal sócio regional.DESIGUALDADES DE FORÇA
Num artigo publicado ontem no Miami Herald, o economista argentino Marcelo Lascano usa, justamente, as diferenças entre os dois países para cobrar uma negociação mais favorável para a Argentina. Ele vê com perigo o crescimento da dependência da economia da Argentina em relação ao Brasil. O economista toma como questão-chave os números do comércio bilateral: 30% de todas as exportações da Argentina vão para o Brasil. Enquanto isso, apenas 10% das exportações do Brasil vão para a Argentina. Lascano não está preocupado com quem leva vantagem na balança comercial, mas de que lado está a dependência. Ele conclui que a Argentina está enfraquecida nesse negócio, com a seguinte argumentação: Qualquer turbulência na Argentina vai perturbar, certamente, os negócios do Brasil. Porém, qualquer desequilíbrio no Brasil afetaria um terço do comércio exterior argentino, sem contar os efeitos em cadeia que iriam atingir outros setores.CONQUISTAS DO BRASIL
Mas a síntese da idéia de Marcelo Lascano é a seguinte: o Brasil, como o gigante do Mercosul, tem usado o acordo regional para expandir seus negócios para o mundo. Os outros sócios, Argentina, Uruguai e Paraguai estão colocando o Mercosul como o principal corredor para seus negócios externos, numa dependência perigosa. Para o economista argentino, o Chile foi o único país da região que entendeu bem essa vantagem estratégica do Brasil, e por isso não entrou de cabeça no Mercosul. Lascano cita alguns passos dados pelo Brasil, para reforçar a sua tese de que o governo brasileiro tem buscado o expansionismo em todos os campos: tecnológico (com a venda de aviões da Embraer para Europa e Estados Unidos), político (possível entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU) e até militar (programa de construção de satélites com a China). O crescimento dessa tese de que o Brasil é o grande favorecido dentro do Mercosul (conforme crítica já feita pelos norte-americanos) pode se transformar, no futuro, numa questão prejudicial para o próprio Mercosul. Principalmente levando em conta o passado de rivalidade entre Brasil e Argentina.PARAGUAI ILHADO
O presidente do Paraguai, Juan Carlos Wasmosy, realiza esta semana um giro pela Venezuela, Colômbia e México em busca de novos negócios. Numa passagem rápida por Miami, anteontem, Wasmosy foi curto e grosso quando perguntado sobre o motivo de sua viagem: O Paraguai está ilhado e esta viagem tem como objetivo abrir novas relações com o mundo. Se a Argentina, segundo país em importância econômica do Mercosul, reclama de sua condição, ao Paraguai, numa situação inferior, somente ficam as sobras dos investimentos estrangeiros que os sócios mais fortes têm conquistado. Ainda que, sem citar nomes, o Paraguai ilhado, a que se referiu Wasmosy, é justamente o de um país que tem que lutar para abrir o seu espaço. CENTRO DE DISTRIBUIÇÃO
Para Juan Carlos Wasmosy, a única maneira de tirar o Paraguai dessa condição de primo pobre do Mercosul, seria viabilizar o projeto do governo que tenta transformar o país num grande centro de comunicação e transporte regional. Queremos converter o Paraguai num centro ao estilo de Miami (Flórida) e Dallas (Texas), referindo-se à criação de um centro de distribuição para transporte aéreo de carga e passageiros. Ele revelou que o investimento deverá ser feito por uma empresa norte-americana, a qual ficará com direito de explorar o projeto durante 25 anos. Justamente por estar tão próximo do Brasil e da Argentina, não será fácil para o Paraguai se transformar num centro regional. Mas essa é a única esperança de Wasmosy para mudar esse quadro.LAMENTO CHILENO
Nesta semana o presidente Bill Clinton promete forçar a ofensiva no Congresso para que o Chile seja admitido no Nafta - tratado de livre comércio entre Canadá, México e Estados Unidos. Mas as relações comerciais entre EUA e Chile, neste momento, são as piores possíveis. Tudo porque os Estados Unidos não querem comprar salmão e madeira do Chile. No caso do salmão, a acusação é de dumping (venda de produto abaixo do preço para prejudicar concorrentes); já a madeira envolve denúncia na área ecológica. Os dois produtos são tão importantes para o Chile que a pendência virou um problema de Estado. Justamente o Chile, o país preferido do governo americano para expansão de seus negócios na América Latina, agora está sentindo o peso da mão dos ianques, quando seus interesses são contrariados. EFEITO FUJIMORI
Membros da Câmara de Comércio Peru-Estados Unidos reuniram-se ontem para comemorar os 176 anos de independência do Peru. O assunto do dia só poderia ser o clima de instabilidade que envolve o país diante dos abusos cometidos pelo presidente Alberto Fujimori. Os empresários, principalmente aqueles que trabalham com comércio exterior, sabem muito bem o quanto um governo vacilante e cercado de problemas pode prejudicar os negócios externos do Peru.





