Concorrência derruba preços nacionais
Agência Folha
Do Rio
Arquivo FolhaCONTRASTE RADICALEm dez anos, bebidas ficaram 33% mais caras, acima da inflação: média nacional aponta queda de 40% Desde que começaram a cair as barreiras à en trada dos produtos importados no País, no fim de 1989, apenas dois setores conseguiram aumentar o preço dos seus produtos acima da inflação: o farmacêutico (48,8%) e o de bebidas (33,3%). O reajuste desses dois setores, superior à inflação medida pelo IGP (Indice Geral de Preços), contrasta com a média de redução de preços verificada na indústria nacional como um todo (-40%), apanhada pela concorrência dos estrangeiros, segundo um estudo inédito do Departamento Econômico do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) sobre o impacto da abertura comercial na indústria nacional de 89 a 98.
Nesse período, a indústria como um todo teve sua capacidade de fixar preços reduzida drasticamente, diz Maurício Mesquita, autor do estudo. As indústrias farmacêutica e de bebidas também ampliaram suas margens de lucro em 65% e 48,5%, respectivamente, nos últimos dez anos, diz o estudo. Foram as mais altas variações detectadas, enquanto a maioria das demais indústrias amargou reduções nos lucros, resultando numa média nacional de -24%.
A queda das barreiras aos produtos importados beneficiou o setor farmacêutico, explica o economista. As empresas puderam importar insumos mais baratos, não sofreram concorrência de fora devido à concentração internacional de laboratórios e aumentaram os preços. A produção de remédios é concentrada no mundo todo. Os consumidores não têm opção e ficam nas mãos de poucas multinacionais, diz Mesquita. O quadro tende a se agravar, completa, com as fusões, que volta e meia são anunciadas.
No caso do setor de bebidas, dominado por refrigerantes (64%) e cervejas (32%), o estudo identifica uma estrutura de produção que não sofre concorrência internacional devido a uma complexa rede de distribuição. Não é à toa que os estrangeiros sempre tentam entrar no País se associando a empresas nacionais. As alíquotas para importação de bebidas nem fazem tanto sentido, diz o autor do estudo, lembrando a tentativa de aproximação da norte-americana Miller com a Brahma. Sem pressão dos importados, nada garante que a redução de custo vá ser repassada para o consumidor.
A participação dos produtos importados na indústria de bebidas passou de 3,5%, em 89, para 4,9% em 98. Na farmacêutica, o pulo foi maior - de 6,9% para 14,4% -, o que não caracteriza concorrência porque as subsidiárias passam a importar das suas matrizes, sem ganhos para o consumidor, explica Mesquita. O estudo sobre a abertura comercial será publicado, juntamente com outras pesquisas do BNDES, no livro A Economia Brasileira nos Anos 90, editado pelo banco, com lançamento previsto para setembro. Como banco de dados para o estudo, Mesquita usou as pesquisas industriais mensais e anuais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), além do IPA (Indice de Preços do Atacado) da Fundação Getúlio Vargas, para chegar ao custo da produção de 38 setores industriais.





