Rio Janeiro - A cautela do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) com relação à compra da Ipiranga pelo consórcio Petrobras, Ultra e Braskem encontra eco no mercado de distribuição de combustíveis. Há preocupação com a concentração das vendas na rede BR, nas regiões onde assumirá os postos Ipiranga.
Segundo cálculos da Chevron, a estatal ficará com 62% do mercado da região após assumir os postos da Ipiranga. Além disso, terá 59% do mercado do Centro-Oeste e 50% do Nordeste.
''O Cade precisa ter uma atitude mais forte nesse caso. O ideal seria instituir um limite de 50% de mercado para apenas uma empresa'', diz o consultor Carlos Eduardo Domingues, da Downstream Consultoria. ''O que nos preocupa é a grande concentração de mercado nas mãos de BR'', afirmou, em entrevista recente, Maurício Nicholls, diretor-presidente da Chevron Brasil, empresa que administra a marca Texaco. ''A Petrobras ficará com uma posição muito superior ao segundo colocado'', completou.
A disputa na região Centro-Oeste, por exemplo, é praticamente polarizada entre Petrobras e Ipiranga, com participações menores de outras companhias. Lá, o grupo gaúcho detém 28% do mercado, contra 31% da Petrobras, segundo os cálculos da Chevron. No Norte, a BR já detinha posição dominante, com 55% contra 7% da rival. Já no Nordeste, a Petrobras vai assumir uma fatia de 13% do mercado, chegando a 50%. ''É cedo para avaliar o impacto. Não acredito em concorrência desleal, mas uma concentração desse nível muda toda a dinâmica do mercado'', aponta Nicholls.
A operação foi anunciada em um momento de melhoria no mercado de combustíveis, em que empresas privadas voltaram a apostar em crescimento de suas redes. Com o fim da indústria de liminares e maior rigor contra sonegadores e adulteradores, distribuidoras que já pensaram em deixar o país estão revendo suas estratégias.
A Chevron, por exemplo, anunciou na semana passada o lançamento de um novo produto - um aditivo chamado Techron, que será adicionado a todas as gasolinas vendidas na rede Texaco - e investimentos para recuperar postos perdidos durante o período de crise. Segundo o presidente da companhia, a idéia é buscar os revendedores que hoje operam sem bandeira de distribuidora, chamados pelo mercado de bandeiras brancas, que hoje representam 40% do total de postos do País.
Especialistas afirmam que a Shell vem adotando estratégia semelhante e preparando, inclusive, uma volta ao Centro-Oeste, de onde saiu após vender postos para a italiana Agip. A própria Ipiranga vinha atuando de maneira agressiva no sentido de recuperar pontos de venda nas grandes cidades brasileiras.

mockup