São Paulo - O embaixador Rubens Ricupero, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), manifestou ontem preocupação com a concentração do comércio de commodities agrícolas em poder de poucas empresas. ''Vemos o comércio agrícola controlado, às vezes, por apenas duas empresas'', disse Ricupero, durante o Seminário Preparatório para a 11 Unctad, realizado ontem na capital paulista. ''Alguns economistas dizem que não vêem impactos negativos dessa concentração até o momento. Mas não sei até que ponto a volatilidade das cotações de commodities agrícolas pode estar vinculada à concentração'', acrescentou Ricupero. Ele destacou que considera necessária uma discussão sobre essa questão, como forma de criar condições para que novos agentes entrem nesse mercado.
O comércio de commodities agrícolas foi um dos exemplos aos quais Ricupero recorreu para tratar dos malefícios provocados à economia mundial por monopólios e pela concentração de mercado. ''Há muitos setores em que as empresas transnacionais fazem acordos secretos para dividir mercados ou para conquistar exportações exclusivas para outros mercados'', disse, citando como exemplo um caso de formação de cartel no comércio de vitaminas nos Estados Unidos.
O secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg, acrescentou que a ação de 16 cartéis internacionais - entre eles, o das vitaminas -, entre os anos de 1996 e 2000, resultou em uma transferência de recursos de países em desenvolvimento para países desenvolvidos da ordem de US$ 32 bilhões. ''Há ainda uma relação direta entre a concentração de mercado e a perda de eficiência dos setores que recorrem a essa estratégia'', acrescentou Goldberg.
Ricupero lembrou que há um grande desnível entre os países em relação à adoção de políticas de concorrência. Ele afirmou também que o nivelamento dessas políticas no Mercosul ainda é incipiente e que, embora existam regras na União Européia, elas são constantemente desrespeitadas para a preservação de políticas de subsídios setoriais.
De acordo com o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Ferreira Levy, embora a administração Luiz Inácio Lula da Silva seja um governo de esquerda, confere uma grande ênfase às política de defesa da concorrência por que as considera necessárias para o desenvolvimento econômico. ''A concorrência contribui para melhorar a distribuição de renda'', afirmou. ''É uma equação que tem de ser equilibrada, senão quem acaba pagando a conta é o mais pobre.'' Exemplo disso, segundo ele, é a condução que o governo dá ao processo de adoção do novo modelo do setor elétrico, em que algumas áreas são monopólios naturais. ''É um grande desafio atrair investimentos nesse setor, sem que se criem condições anticoncorrenciais'', disse.

mockup