Concentração de renda no campo pode aumentar
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domingo, 04 de abril de 1999
Agência Estado 
Arquivo FolhaDesconfiançaRoberto Rodrigues, da OCB: dúvidas quanto ao ganho de renda do setor agrícolaO ganho proporcionado à agricultura pelo novo regime cambial, estimado entre R$ 8 bilhões e R$ 12 bilhões, deverá contribuir para acentuar a concentração da renda no campo. Análise feita por especialistas e empresários indica que ganharão mais os produtores capitalizados, que tiveram acesso a crédito barato e destinam suas colheitas ao mercado internacional. A desvantagem será dos agricultores que negociaram antecipadamente suas produções, que se endividaram em dólar (por causa do financiamento dos insumos) e dirigem a produção ao consumo doméstico.
O lucro obtido pela parcela favorecida da agricultura, ainda assim, pode ser anulado. A inflação no campo está superando, de longe, a inflação urbana. Levantamento feito pela Secretaria da Agricultura do Estado do Paraná indica que, após a liberalização do câmbio, os preços dos fertilizantes aumentaram entre 17% e 23%, dos defensivos (agrotóxicos), entre 33% e 44%, dos produtos veterinários, entre 4,3% e 4,8%, dos tratores, entre 2,4% e 6,6% e da mão-de-obra, entre 2,2% e 5,9%. Alguns tipos de sementes, no entanto, tiveram seus preços reduzidos em 1,3%, mas outras foram reajustadas em 5,3%. O mesmo ocorreu com os implementos agrícolas, cujos preços caíram 0,6%, mas outros estão custando até 3,9% mais.
Arquivo FolhaCeticismoHomem de Mello, da USP: Produtor de tomate vive hoje no pior dos mundosIsso significa, segundo o professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Homem de Mello, que o produtor de tomate, por exemplo, pode estar vivendo no pior dos mundos, porque destina a produção ao mercado interno, que está retraído, e utiliza elevadas doses de defensivos e fertilizantes.
Essa cenário não se aplica aos produtores de café, açúcar, laranja e fumo, culturas típicas de exportação, que estão recebendo mais reais com a venda de suas safras. Os produtores de soja estão excluídos desse grupo porque o preço atual do produto, em dólar, é o mais baixo dos últimos 23 anos.
O presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), Roberto Rodrigues, também tem sérias dúvidas de que todo esse ganho de renda possa permanecer nas mãos dos agricultores. Rodrigues inclui entre os ganhadores os produtores de trigo e de milho, pelo fato de os preços serem calibrados pelo mercado internacional. No caso do milho, o País está colhendo uma de suas maiores safras, o que também garante renda adicional. A safra deverá chegar a 32 milhões de toneladas.
Mello e Rodrigues concordam, no entanto, que a renda do setor rural vai crescer. É o reverso da âncora verde, que surgiu no início do Plano Real e permitiu a estabilidade dos preços à custa dos agricultores, resume o professor da USP.


