Completar o álbum da Copa pode desequilibrar o orçamento
Quem quiser entrar na brincadeira deve preparar o bolso; investimento mínimo fica na casa dos R$ 1 mil
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de junho de 2026
Quem quiser entrar na brincadeira deve preparar o bolso; investimento mínimo fica na casa dos R$ 1 mil

De quatro em quatro anos, enquanto crianças e adolescentes se divertem colando figurinhas no álbum da Copa do Mundo e transformando os pátios escolares e lugares públicos em pontos de troca, em casa os pais recorrem à matemática para acomodar a despesa extra. Os gastos começam em pouco mais de R$ 1 mil, mas podem passar de R$ 7 mil por álbum. Com uma linha muito fina separando o espírito torcedor do aperto financeiro, financiar o hobby dos filhos sem deixar as contas entrarem no vermelho é um desafio.
No mundial de 2026, disputado nos Estados Unidos, México e Canadá - entrarão em campo 48 seleções no lugar das 32 dos últimos torneios. Com um número maior de equipes, aumentou também o número de páginas dos álbuns e de figurinhas necessárias para preenchê-los. Nesta Copa, o álbum completo tem 980 figurinhas. Essa foi a maior coleção já lançada pela Panini, a empresa autorizada pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) para comercializar o produto.
Em 2026, cada pacote de figurinhas vem com sete cromos e é vendido a R$ 7. Se o colecionador comprar 140 pacotinhos, com 980 figurinhas no total, e mais o álbum, desembolsará R$ 1.004,90, valor já bastante significativo para grande parte da população brasileira, considerado o salário mínimo atual, de R$ 1.621. Mas como é impossível não haver figurinhas repetidas, se o colecionador continuar comprando até completar todo o álbum, o custo ultrapassará os R$ 7,3 mil. Para diminuir os gastos, os grupos de troca representam um alívio para o bolso de pais e mães, os principais financiadores da diversão.
A farmacêutica Daniele Zampar é mãe da Brenda, 15, e do João Neto, de 10 anos, e pela segunda vez acompanha os filhos na brincadeira. Na Copa de 2022, cada criança completou um álbum e o combinado para este ano era fazer apenas um. Mas o marido de Zampar foi premiado em um evento com um álbum de capa dura e algumas figurinhas e a família está, novamente, empenhada em completar dois álbuns. Em um deles, faltam apenas duas figurinhas. O outro deve ser finalizado em breve.
Zampar não parou para calcular o quanto já investiu, mas acredita que foram cerca de R$ 1 mil e até preencher os dois álbuns, outros R$ 1 mil devem ser gastos. “A gente vai muito pela emoção e acaba não calculando. A gente começa com um investimento, os avós acabam ajudando e as trocas vão se intensificando”, comentou. “A gente tem que se segurar porque vendem figurinhas na farmácia, na padaria, e a gente quer dar essa alegria a eles porque é um período pequeno.”
A farmacêutica reconhece que cultivar esse hobby não está ao alcance de muitas famílias, mas acredita que quando o orçamento é mais apertado, o álbum vai sendo preenchido mais lentamente. “Sei que essa não é a realidade de todo mundo, mas talvez as famílias vão um pouco mais devagar para diluir a despesa.”
Em um mundo dominado por telas e com forte tendência ao isolamento social, colecionar figurinhas pode ser um hábito saudável que ajuda a desenvolver a sociabilidade e a afetividade porque estimula a convivência com outras pessoas, destacou o professor de economia da Faculdade Anhanguera, Elcio Cordeiro da Silva.
No entanto, alertou ele, as famílias precisam tomar certos cuidados em relação aos gastos para que os aspectos positivos envolvidos no processo de tentar completar o álbum não sejam anulados pelo descontrole financeiro. “O álbum da Copa do Mundo é uma excelente oportunidade para envolver as crianças no processo de aprendizado sobre educação financeira, demonstrando os custos reais envolvidos, apresentando possibilidade de investimentos e o quanto esses valores renderiam se fossem aplicados em alguma alternativa de investimento, como o Tesouro Reserva, nova modalidade de investimento do Tesouro Direto”, orientou Silva.
Como forma de aprendizado, o professor sugere definir limites de gastos com o álbum, além de incentivar a participação das crianças e adolescentes em grupos de trocas de figurinhas, explicando a eles que essa é uma forma de aproveitar ao máximo o dinheiro gasto e de economizar na compra de novas figurinhas. “As famílias devem aproveitar essa oportunidade para demonstrar que diversão e educação financeira não estão em lados opostos. Ou seja, é possível conciliar educação financeira com a diversão do álbum de figurinhas da Copa do Mundo”, destacou o economista.
“Não considero irrisório, o gasto, mas é de quatro em quatro anos e valem a emoção e a interação que os álbuns e as figurinhas proporcionam, a vivência”, ressaltou Zampar. “Na nossa família, gostamos muito de futebol, nós quatro. Mesmo fora da Copa do Mundo, a gente assiste, comenta, brinca. E a Copa traz uma emoção diferente. Eu vivi o tetra e o penta e quero que eles vivam essa emoção também.”
Zampar também vê no hábito de colecionar figurinhas uma maneira de ensinar aos filhos sobre negociação, troca, conquista e frustração. “Eu e meu marido não interferimos. Tudo é feito por eles. Eles aprendem a ganhar e a perder. E também é um momento em que ficam longe das telas e, muitas vezes, socializam com crianças desconhecidas.”
Pontos de troca – Nessa época, inúmeros pontos de troca surgem pela cidade. Na praça ao lado do Mercado Shangri-la, grupos se reúnem aos sábados, nas manhãs de domingo e feriados.
No Aurora Shopping, o piso térreo ganhou um espaço destinado a isso, que funciona nos mesmos horários do shopping.
No Catuaí Londrina Shopping, o ponto de encontro é aos sábados e domingos, a partir das 14 horas.
No dia 30 de junho, um sábado, a movimentação acontece no estacionamento da Bem Multiprofissional, na avenida Maringá, 1674, das 9 às 12 horas.
Vendas de bancas de jornal chegam a dobrar na Copa
Proprietário da Banca Flamengo, localizada no Mercado Shangri-La, Selso Seiji Gomes Morotomi calcula que nos anos de Copa do Mundo, as vendas chegam a dobrar por causa das figurinhas. “As pessoas não se seguram. Tem gente que completa um álbum e depois, para não ficar de fora da brincadeira, iniciam outro e depois outro”, contou.
Morotomi calcula que a diversão está mais em conta neste ano, em relação à última edição do mundial. “O preço do pacote de figurinhas nesta Copa está R$ 7, mas vêm sete figurinhas. Na Copa passada, custava R$ 4 com cinco figurinhas”, comparou. “E tem as figurinhas extras que não são coladas no álbum, mas servem para colecionar ou como moeda de troca. Elas podem valer várias figurinhas. Tem gente que troca uma dessas por dez pacotinhos, o que dá R$ 70. Aí, completa mais rápido o álbum.”
Em 2026, os álbuns e as figurinhas começaram a ser comercializados em 30 de abril e a onda se estende, no máximo, até a segunda quinzena de julho, poucos dias após o término do torneio, que será disputado de 11 de junho a 19 de julho.
“Nesse período, nós temos um aumento em nossa rentabilidade de 70%”, disse o proprietário da Ler Aqui, distribuidora das figurinhas da Panini para as regiões Noroeste e Oeste do Paraná. “Neste ano, estamos com uma expectativa de aumento de 20% a 30% nas vendas. As vendas cresceram por causa da maior quantidade de seleções participantes e pelo aumento do número de pessoas que aderem à brincadeira de montar álbum. A cada ano, cresce o número de adeptos.”(S.S.)


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


