Embates ideológicos, disputas judiciais e muita burocracia. Neste cenário, enfrentado frequentemente pelos pesquisadores brasileiros, os experimentos tecnológicos estão sendo atrasados. E estes atrasos não podem ser medidos em meses ou anos, mas podem ser determinantes em um futuro próximo. Na avaliação dos pesquisadores, sem os avanços e o emprego da tecnologia, o agronegócio brasileiro vai perder competitividade. ''Estamos discutindo hoje questões que já estavam em discussão há dez anos. Isso vai afetar a todos'', afirma Edilson Paiva, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo e vice-presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).
Segundo ele, a ''guerra'' declarada contra os organismos geneticamente modificados (OGM) - os populares transgênicos - não passam de pura retórica e de ''manipulação de informações com conotações ideológicas, políticas e econômicas''. Do lado da pesquisa não há qualquer registro de acidentes contra o meio-ambiente e às saúdes humana e animal. Nos Estados Unidos os transgênicos são liberados há mais de dez anos. Além disso, a conta dos OGMs é mais favorável do que as culturas convencionais. Um dos números significativos é a redução acumulativa de pesticidas na década de 1996 a 2005.
No período houve uma redução de 224.300 toneladas métricas de ingrediente ativo, o equivalente a 15% de redução no impacto ambiental associado ao uso de pesticidas nas culturas, de acordo com o relatório 35 do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia. Ainda há a redução do uso de combustíveis fósseis, associado a menor número de pulverizações de inseticidas e herbicidas, em uma economia estimada em 962 milhões de quilos de dióxido de carbono, além de um sequestro adicional, no solo, de gás carbônico. Os transgênicos são cultivados em 22 países por 10,3 milhões de produtores em 102 milhões de hectares.
O pesquisador lembra que o campo precisa aumentar a produção de alimentos para atender a demanda populacional. A projeção é que a população atinja os 12 bilhões de pessoas nos próximos 50 anos. ''O consumo per capita está estável desde os anos 40 e a produção mundial é de 2 bilhões de toneladas de grãos'', diz. Além disso, ele lembra que atualmente 85% da população mora na zona urbana, enquanto na década de 50 apenas 15% estava nas cidades. O aumento da produção de alimentos, na sua avaliação, só vai ocorrer com o crescimento da produtividade das lavouras, obtida com o uso dos transgênicos.
''O Brasil é o único País que domina a tecnologia da agricultura tropical e que tem área para expansão. Isso incomoda muito'', afirma Paiva. Na sua avaliação, a não adoção de tecnologias a curto e médio prazo irá afetar os países menos desenvolvidos, que terão a sua produção agrícola reduzida; e, posteriormente, o meio-ambiente, devido à utilização de defensivos agrícolas. Para os consumidores que ainda têm ressalvas quanto à utilização dos OGMs, o pesquisador Elíbio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, lembra que os produtos farmácos (como vacinas e a insulina) já levam transgênicos em sua composição. Na Europa, por exemplo, os OGMs estão em mais de 200 produtos farmácos.

- A jornalista participou do workshop ''O futuro da biotecnologia agrícola no Brasil'', em Brasília, a convite do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).

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