Commodities ameaçam meta de inflação
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de março de 2005
Márcia De Chiara<br>Agência Estado 
São Paulo - Ficou ainda mais difícil atingir o centro da meta de inflação de 5,1% acertada entre a equipe econômica do governo e o Fundo Monetário Internacional (FMI), depois que surgiram, nas últimas semanas, novas pressões de preços de importantes commodities agrícolas e não-agrícolas, como petróleo, cobre , soja e milho. O cenário inspira preocupação, concordam economistas.
Nas contas do economista-chefe do Banco Pátria, Luis Fernando Lopes, o Banco Central (BC) teria de elevar a taxa básica de juros hoje de 19,25% ao ano para 22% se quiser atingir o centro da meta de inflação. ''Só em 2000 foi possível acertar o centro da meta'', observa. Segundo ele, a meta de inflação deste ano é ''excessivamente ambiciosa''.
Lopes também pondera que a alta do petróleo e dos grãos, por conta da estiagem, além da valorização do dólar em relação ao real, terão reflexos no bolso do consumidor. Neste mês, o índice geral de preços em dólar das principais commodities agrícolas e metálicas exportadas pelo Brasil aumentou 6,8% na comparação com fevereiro e 7,7% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo cálculos da MSConsult.
A consultoria constrói o indicador ponderado pela participação de cada item na pauta da balança comercial brasileira. O índice inclui as cotações de açúcar, café, suco de laranja, soja ( óleo, grão e farelo), frango, ouro, alumínio, estanho, aço, minério de ferro, celulose, papel e petróleo.
Só as cotações das commodities agrícolas, por exemplo, subiram em março 10,1% na comparação com fevereiro, puxadas pela disparada da soja (16,4%), do café (13,4%) e do suco de laranja (8,9%). Se nessa conta fosse incluído o milho, o salto seria ainda maior. Nas últimas três semanas, o grão se valorizou 22,6 % no mercado atacadista de São Paulo.
O índice de preços das commodities não-agrícolas, por sua vez, aumentou 3% este mês na comparação com fevereiro e foi impulsionado pelo petróleo, com alta de 15%, pelo alumínio (5,7%), zinco (5,6%), entre outros. O cobre, por exemplo, que não está nesse indicador, atingiu no dia 17 deste mês a maior cotação em 15 anos na Bolsa de Metais de Londres (LME). A tonelada do metal foi negociada a US$ 3.424,50. ''Não se trata de um desastre, mas a tendência é ficarmos mais distantes da meta'', diz o sócio da MSConsult, Fábio Silveira.
De acordo com o economista, as pressões são ainda localizadas, mas preocupam por que recaem sobre commodities que estão na base da cadeia de produção. Por conta de oferta apertada, a consultoria projeta que o preço médio do barril de petróleo no ano deve ficar 23% acima do anterior. Com isso, observa Silveira, em algum momento as pressões vão se manifestar nos preços dos derivados do produto, como óleo diesel, gasolina e resinas plásticas.


