COMÉRCIO VAREJISTA Realidade é difícil, mas Sincoval mantém esperança
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quarta-feira, 02 de julho de 2003
Osmani Costa<BR>Reportagem Local 
Altas taxas de juros, desemprego recorde, inadimplência crescente, indústria produzindo menos do que poderia, tarifas públicas e preços controlados sendo reajustados em índices acima dos aumentos salariais, consumo em baixa. Alguns dos principais indicadores da economia brasileira não estão nada bem; aliás, já vêm mal há alguns anos. Agora, parece que eles apenas se acentuaram e ameaçam apesar dos insistentes desmentidos das autoridades de Brasília levar o País a um novo período de recessão.
Para os comerciantes do varejo, de uma maneira geral, o quadro é lastimável. Eles vendem cada vez menos e, em consequência, lucram, compram dos fabricantes, investem, recolhem impostos e empregam também cada vez menos. Comerciante do ramo de artigos para decoração na cidade há 36 anos, o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Londrina (Sincoval), Uzier de Carvalho, explica que a situação é grave, já beira mesmo à recessão, e exige dos governos municipais, estaduais e federal medidas imediatas para a recuperação econômica.
Folha Qual é a situação atual do comércio varejista em Londrina?
Carvalho Muito ruim. As vendas estão bem devagar, quase parando. Nosso momento é crítico, já estamos beirando a uma recessão.
Folha Como foi o desempenho do setor no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2002?
Folha Foi fraco demais. As vendas não vêm boas nos últimos anos, mas agora pioraram muito. Acho que a quantidade de vendas do setor caiu em torno de 8%, nos primeiros seis meses deste ano.
Folha Nem os meses de maio pelo Dia das Mães e de junho, pelo Dia dos Namorados, aqueceram as vendas?
Carvalho Aqueceram, sim, mas apenas temporariamente; e não nos níveis que precisávamos para repor as perdas dos quatro primeiros meses que foram muito negativos.
Folha Quais são os motivos desta crise?
Carvalho São diversos, mas o principal é a alta taxa de juros. E todo o efeito psicológico que ele causa no consumidor. O brasileiro está com sua auto-estima lá embaixo. Isto é péssimo, porque a pessoa assim não tem vontade de comprar. Isto, sem contar os efeitos concretos e nefastos que os altos juros causam nos preços das mercadorias à venda no comércio. Porque os juros formam uma corrente que atinge deste o fabricante, passando pelos atacadistas, pelo comércio varejista, até o consumidor final. É uma cadeia que realimenta a negatividade. Ninguém gosta de pagar com juros, só de receber com juros.
Folha E quais as consequências desta crise pela qual passa o comércio?
Carvalho Igualmente são muitas e graves, mas poderia destacar duas principais. Primeiro, o comércio vendendo menos, recolhe menos impostos que seriam usados pelos governos nas manutenção dos serviços públicos. Segundo, com as vendas caindo mês a mês mesmo que se diminua o estoque, que se reduza a margem de lucro o comerciante acaba por demitir empregados e a oferecer menos vagas de trabalho.
Folha A reforma tributária proposta pelo governo Lula, que começa a ser discutida no Congresso, pode trazer algum alento aos comerciantes?
Carvalho Acho difícil, porque aí estão em embate duas forças em constante contraposição. O governo, sempre querendo arrecadar mais; e os comerciantes os industriais, os produtores, as pessoas em geral sempre querendo pagar menos impostos. É uma situação complicada, uma equação difícil de resolver.
Folha E qual é a saída para esta situação tão ruim?
Carvalho Não sei bem qual seria. Abaixar as taxas de juros já seria um bom começo. Em seguida, outras medidas para ampliar as linhas de crédito e incentivar a produção, a geração de empregos, a recuperação dos salários e as vendas do comércio devem ser tomadas. O governo federal ainda está em início de mandato. Tenho a expectativa de que a situação poderá melhorar nos próximos meses e anos.
Folha E a questão do horário de funcionamento do comércio na área central da cidade, discutida há anos, já está resolvida de acordo com o interesse dos comerciantes?
Carvalho Não, não está resolvida. Nós seguimos sendo discriminados em relação aos lojistas dos shoppings. E, inclusive, de outras áreas da cidade, como a Avenida Saul Elkind (zona norte), onde há o funcionamento aos sábados à tarde e domingos pela manhã sem impedimento e sem fiscalização. Nós defendemos para os comerciantes do quadrilátero central da cidade a flexibilização no horário de funcionamento, principalmente para que as grandes lojas de departamentos e outras interessadas possam abrir aos sábados e domingos. Assim que uma lei municipal permitir esta abertura, o Sincoval negociará um acordo coletivo com o sindicato de empregados para acertar a questão trabalhista. Do jeito que está, estamos sendo prejudicados.


