Preço da tecnologiaFrancisco Contato, da Relojoaria Paranaense, tem o seu negócio há mais de 50 anos no centro de Londrina: ‘‘ O lucro dos consertos caiu muito. Hoje as pessoas procuram a relojoaria apenas para trocar pilhas’’ Antigas lojas do centro de Londrina resistiram ao tempo e às sucessivas mudanças econômicas do País. Esses pequenos comércios teimam em permanecer de portas abertas em plena era de reengenharia e qualidade total, sem sucumbir à concorrência de grandes redes de lojas e shoppings centers. Nem a mudança de hábitos - hoje praticamente todas as roupas são compradas prontas - abalou a vontade desses pioneiros do comércio de Londrina de manter seu negócio.
Estabelecidas nas décadas de 40 e 50, as lojas - a maioria bazares de aviamentos - permanecem intactas com suas estandes de madeira pesadas e produtos tradicionais como Leite de Rosas, pó compacto Tabu, óleo Singer, além de brinquedos como pião e bilboquê. Mas os proprietários têm saudades da época em que Londrina era considerada a Capital do Café, quando, depois da colheita, a Cidade ficava povoada de produtores endinheirados e senhoras ávidas por consumir.
Tadamasa Ajimura, proprietário do Bazar Ajimura, conta que só consegue permanecer com a loja aberta por ter imóvel próprio. ‘‘As vendas caíram mais de 50% depois do Plano Real’’, calcula ele, afirmando que o bazar já não dá lucro. ‘‘Vivemos de cinto apertado’’, diz. Além da falta de dinheiro no mercado, Ajimura reclama que a concorrência aumentou muito depois do Real por causa dos baixos juros da poupança. ‘‘Muita gente resolveu investir o dinheiro abrindo um comércio’’.
ConcorrênciaTadamasa Ajimura, que viu as vendas caírem 50% após o Plano Real, diz que seu bazar, funcionando desde 1948, já não dá lucro: ‘‘Vivemos de cinto apertado’’
A abertura das importações - com a entrada de roupas baratas da Ásia - e a febre das lojas de R$ 1,99 afetaram as vendas nos bazares em geral. ‘‘Mas as pessoas já descobriram que os produtos de R$ 1,99 são descartáveis’’, diz Ajimura.
Instalada na rua Sergipe desde 1948 - ainda antes do asfalto -, o bazar foi aberto pelo pai de Tadamasa, o senhor Massaji Ajimura. ‘‘Morávamos num sítio no interior de São Paulo e, como temos várias mulheres na família, meu pai resolveu abrir o bazar, considerado um negócio próprio para o sexo feminino trabalhar’’, diz Ajimura, que na época tinha sete anos.
Embora não estejam mais a frente do bazar, Massaji Ajimura e sua esposa Tokiko Ajimura, de 81 e 80 anos respectivamente, podem ser encontrados na loja - que atualmente dispõe de cerca de mil itens. É que a diversificação também foi umas das fórmulas utilizadas para resistir ao tempo. ‘‘Na década de 50, as senhoras costuravam as roupas de toda a família e o forte do bazar era aviamentos. Hoje, vendemos até malas de viagem’’, diz Ajimura.
O empresário Shiguero Kiy, dono do Bazar Kiy há 30 anos, conta que se não tivesse loja própria também já teria encerrado seu negócio. Segundo ele, as roupas coreanas e os brinquedos paraguaios são os grandes concorrentes. ‘‘Ninguém mais quer comprar brinquedo de corda e pilha’’, reclama. Na loja, há bilboquês que custam R$ 9 e lancheiras antigas, de plástico, por R$ 3,50.
‘‘Até 1994, tínhamos três funcionários. Atualmente, temos apenas um’’, diz Kiy. Ele calcula que as vendas do bazar caíram 40% nos últimos três anos e conta que o produto de maior sobra no estoque é o botão. ‘‘O botão fora de moda é prejuízo certo’’.
O filho de Shiguero, Gilberto Kiy, comprou o Sevenfold’s Armarinhos Ltda - um bazar ao lado da loja do pai, na rua Sergipe - há dez anos. O Sevenfold’s existe há 30 anos em Londrina. ‘‘Vendíamos aviamentos para costura. Agora temos de um tudo, de produtos de beleza a mochilas e bolsas’’. Com prédio próprio, Gilberto trabalha com a esposa e uma funcionária.
O dono do Bazar 15 de Novembro, Jozy Kumagae, está estabelecido na avenida Duque de Caxias há 30 anos. Cerca de 20 clientes fazem compras na loja diariamente. ‘‘Mas a maioria gasta entre R$ 1 e R$ 3’’, diz Kumagae, que criou e formou três filhos com o lucro do bazar. ‘‘Hoje esta tarefa seria difícil. Desde a abertura do Catuaí e das importações, as vendas estão fracas. Do ano passado pra cá caíram 50%’’. Kumagae paga R$ 500 de aluguel da loja.
Vender relógios também não é atividade fácil em tempos de grande concorrência. Além de ser encontrado em diversas lojas da Cidade, o produto também pode ser comprado no camelódromo e até em esquinas do centro. Tamanha ‘‘fartura’’ fez com que as vendas da Relojoaria Paranaense acumulassem uma queda de 50% nos últimos anos quatro anos, segundo o proprietário Francisco Contato. Inaugurada há mais de 50 anos na rua Souza Naves, a Relojoaria Paranaense comercializa atualmente cerca de seis unidades por mês de relógios com preços médios que variam entre R$ 100 e R$ 120.
‘‘O lucro dos consertos também caiu muito. Hoje as pessoas procuram a relojoaria apenas para substituir as pilhas dos relógios. A troca custa R$ 3. A limpeza custa R$ 15 mas tem dado prejuízo. Metade dos relógios acabam não sendo retirados’’, diz Contato, que já acumula 200 unidades que não foram retiradas.
A relojoaria, que também trabalha com bichos de pelúcia, jóias, agendas eletrônicas e peças decorativas, tinha três funcionários há três anos. Atualmente, tem um empregado.
Com loja própria, Contato fatura cerca de R$ 2,2 mil por mês. ‘‘Quase tudo é usado para pagar contas. Vivo da minha aposentadoria’’. Mas com 72 anos, o dono da Relojoaria Paranaense não perde a esperança. ‘‘Um dia o País ainda vai melhorar’’.

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