Comércio já vive risco da indexação
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domingo, 08 de dezembro de 2002
Agência Estado 
São Paulo - Empresas da indústria e do comércio aproveitam o vácuo de poder da transição de governo para realinhar preços e recuperar margens de lucros que perderam nos últimos anos. Ao longo do Plano Real, com o fim da inflação e a abertura do mercado, as empresas brasileiras se viram obrigadas a enfrentar uma dura concorrência entre si e com os importados, sacrificando margens para não perder vendas.
Mesmo em 1999, depois da mudança do regime cambial, a maioria delas optou por absorver parte do impacto da desvalorização do real para manter participação no mercado. Agora, as companhias parecem ter mudado de tática. E o resultado reflete-se nos índices de inflação, que dispararam nos últimos meses.
''Muitas empresas resolveram recuperar perdas em detrimento de vendas e de participação no mercado'', diz o economista-chefe da LCA Consultores, de São Paulo, Luís Suzigan. ''Se virar moda, há o risco de gerar movimentos de saída de empresas do mercado brasileiro e de restauração dos mecanismos de indexação, com repasses automáticos de aumentos de custos para os preços'', acrescenta.
Segundo ele, essa estratégia ainda reflete um comportamento típico de períodos de turbulências, e pode ser revista a partir do início do futuro governo. Não por acaso, a recente escalada dos preços tem fortes componentes defensivos diante das incertezas sobre a política econômica que vai ser seguida pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
''Ninguém quer entrar no governo do PT com defasagens de custos ou aumentos de preços pendentes, por causa do temor da volta de velhos fantasmas como o congelamento e outros mecanismos de controle de preços'', afirma o consultor Fernando Montero, da Tendências Consultoria Integrada, de São Paulo.
Um estudo da Tendências, coordenado por Montero, indica que houve remarcações preventivas nos preços dos alimentos, tanto por parte da indústria quanto dos supermercados. O estudo sugere que metade do aumento de custo da cesta básica de alimentos do paulistano seria explicada pela pressão dos preços do atacado, enquanto a outra metade seria consequência de aumentos de margens de comercialização.
Os dados mostram uma alta acumulada este ano de 39,3% no índice de preços do atacado agrícola e de alimentos industrializados, ante um aumento de 29,3% no custo médio dos alimentos que compõem a cesta básica pesquisada em supermercados da cidade de São Paulo pela Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).


